Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

'Todos, incluindo os empresários, terão de abrir mão de direitos'

Para Schalka, à frente do movimento 'Você muda o Brasil', transformar o País tem de passar pelo corte de privilégios

Entrevista com

Walter Schalka

Renata Agostini, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2018 | 05h00

Para Walter Schalka, presidente da Suzano, votar nulo ou branco é inaceitável e, se não há candidato bom, é preciso escolher o “menos pior”. Ele não abre seu voto. Prefere falar sobre uma agenda para o País que envolva reformas, equilíbrio fiscal e foco em investimentos em áreas como educação. Essa é a ideia do movimento “Você Muda o Brasil”, capitaneado por ele e um grupo de empresários e executivos como Luiza Helena Trajano (Magazine Luiza), Jefferson De Paula (ArcelorMittal) e Paulo Kakinoff (Gol), e que realiza hoje em São Paulo um evento para debater os rumos do País.

Na visão de Schalka, mudar o Brasil passa por cortar privilégios ao empresariado, com a redução drástica de isenções fiscais. “Todos querem transformar o Brasil num lugar melhor, desde que seu quinhão seja mantido. A conta não fecha. As pessoas vão ter de abrir mão de direitos, principalmente as classes mais altas.”

O que esperam alcançar?

Na visão do “Você muda o Brasil”, não existe engajamento adequado das pessoas em ações pragmáticas para transformar o País. Os brasileiros estão inconformados, mas viraram espectadores. Nos isentamos da participação porque tínhamos outros afazeres ou achávamos que não era responsabilidade nossa. O Estado foi perdendo eficiência, o nível do serviço é abaixo do esperado. A única forma de transformar o País é investir em questões fundamentais, como ética e educação. A ideia é criar um movimento para engajarmos a sociedade e sermos protagonistas nesse processo. Nosso movimento é absolutamente apartidário. Não tem relação com partido ou com candidatos. 

Mas está sendo lançado em plena corrida eleitoral.

É de propósito. A eleição é oportunidade fundamental para as pessoas escolherem o que querem do Brasil. Não pode chegar no dia da eleição e votar nulo ou branco porque “nada que está lá me representa”. Temos de escolher os melhores. Se não houver quem seja bom, votar no menos pior. 

Ao defender reformas, vocês não direcionam o debate para determinado espectro político?

Cada um de nós (empresários que capitaneiam o movimento) tem preferências políticas. São visões semelhantes, mas com alternativas políticas diferentes. Estamos falando de pensar no País como um todo. Não é uma agenda pró-negócios, é uma agenda pró-Brasil. Queremos atacar questões fundamentais. Uma delas é o tamanho do Estado e o equilíbrio fiscal. Outra a questão da educação e da distribuição de renda. Todo mundo quer transformar o Brasil num lugar melhor, desde que seu quinhão seja mantido. Essa conta não fecha. As pessoas terão de abrir mão de direitos, principalmente as classes mais altas.

Qual a parte dos empresários? 

Falando como Walter Schalka e não como movimento: temos de reduzir brutalmente os subsídios fiscais para empresários, que chegam a R$ 300 bilhões por ano. Outro dia vi discussão sobre subsídio para a indústria de refrigerante. Qual o benefício que isso traz para a sociedade? Há um monte e penduricalho na legislação, protegendo um monte de gente, e o empresariado também quer a proteção dele. Isso tem de ser eliminado. Tivemos um passado patrimonialista e precisamos acabar com isso, gerar um Brasil mais competitivo, expor as empresas à competição. Podemos falar também disso do lado sindical e diversos lugares onde o corporativismo está instalado. Qual outro País tem tabela de frete?

Empresários, como Salim Mattar, da Localiza, e Sebastião Bomfim, da Centauro, declararam voto. O sr. vê como positivo?

Louvo os que têm a coragem e a determinação de manifestar seu voto publicamente. Estava inclinado a declarar o meu, mas, além de minha responsabilidade como cidadão, tenho a minha como executivo. Não sou acionista. Falar que o candidato tal é melhor pode afetar a condução dos negócios. Por isso, optei por, neste momento, não abrir meu voto. 

O sr. mantém a visão de que a retomada dos investimentos virá após a eleição?

Essa visão infelizmente está em xeque, porque estamos indo para um processo de polarização no processo eleitoral, que é inibidor do investimento. Enquanto não tivermos um processo de aglutinação de ideias, obviamente com ideologias um pouco diferentes, isso vai gerar percepção de que é melhor postergar o investimento. E a volta do crescimento só vai acontecer com investimento. Isso de nós contra eles é muito ruim. Temos de buscar as melhores ideias. Espero que isso seja revertido até a eleição. Se qualquer um dos lados da polarização ganhar, será muito ruim para o Brasil. 

 

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