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Toga e caneta

A Operação Lava Jato tem enorme potencial transformador; Nem os políticos nem os empresários mostrarão a mesma desenvoltura em confundir interesse público e interesse privado

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2015 | 21h00

Até onde vão meus conhecimentos de História do Brasil, é a primeira vez em mais de 500 anos que um juiz de primeira instância é guindado a herói nacional em manifestações populares, como as que se realizaram domingo em todo o País.

Entre protestos gerais contra a corrupção, contra o comportamento de certos políticos e contra os desvios do governo, o juiz federal Sérgio Moro foi lembrado e exaltado nas ruas como aquele que empreende uma tarefa saneadora, que tantos outros antes dele não quiseram ou não puderam empreender.

Para não afundar demais no passado, fiquemos apenas com os últimos 60 anos. Nesse período, a bandeira contra a corrupção foi empunhada em circunstâncias diversas e com motivações também diversas. Jânio Quadros, por exemplo, usou a vassoura para supostamente varrer a roubalheira, com o único objetivo de seguir manipulando as massas em favor dos seus projetos de poder. 

O governo militar usou o discurso anticorrupção para afastar políticos que pudessem atrapalhar seus planos totalitários. Outros políticos populistas, como os paulistas Ademar de Barros e Paulo Maluf, usaram até mesmo a fama de manipuladores inescrupulosos de verbas públicas como mote eleitoral de quem “rouba, mas faz”.

As acusações de corrupção e de desvio de recursos públicos foram o principal argumento costurado pelos congressistas para alijar o caçador de marajás, Fernando Collor, da Presidência da República.

Tratada eufemisticamente como instrumento de “expropriação da burguesia”, a corrupção foi amplamente justificada nos últimos anos pelos políticos do PT, tanto para garantir financiamentos de campanha como para incrementar patrimônio pessoal, como se viu nos casos do ex-ministro José Dirceu e do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto. 

A batalha contra a corrupção deixou o campo dos políticos e dos intelectuais e foi assumida por setores do Judiciário como instrumento de transformação.

O ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, foi a primeira autoridade do Judiciário a aceitá-la como missão redentora, não importando aqui quanto tenha sido também projeto de promoção pessoal. Foi o primeiro juiz a decretar a prisão de políticos de alto coturno.

Depois de estudar o alcance da Operação Mãos Limpas, desenvolvida na Itália a partir de 1992, o juiz federal Sérgio Moro entendeu a importância de dar consequência à luta tenaz contra a corrupção. Foi quem deflagrou a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, e o primeiro a determinar prisões em escala não apenas de políticos, mas também de corruptores.

É cedo para avaliar o alcance dessa nova postura. Nem dá para afirmar que o velho ranço patrimonialista tenha levado um golpe decisivo.

O que dá para afirmar é que a Operação Lava Jato tem enorme potencial transformador. Daqui para a frente, nem os políticos nem os empresários mostrarão a mesma desenvoltura em confundir interesse público e interesse privado, como se viu por aqui.

Mais que tudo, é uma demonstração de quanto uma toga sobre os ombros e uma caneta entre os dedos podem mudar a cara do Brasil.

CONFIRA:

Aí está a evolução da expectativa do mercado para o PIB de 2015.

Dança da cordinha

Há um ano, o jornal inglês ‘Financial Times’ observava que as previsões sobre a evolução do PIB do Brasil se comportavam como a “dança da cordinha”, brincadeira que consiste em passar por baixo de uma corda esticada, cada vez mais perto do chão. De lá para cá, a corda vai se posicionando cada vez mais embaixo, já há meses em terreno negativo, sob o piso, como os levantamentos semanais (Pesquisa Focus) do Banco Central junto ao mercado estão demonstrando.

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