Tok & Stok é vítima dos derivativos

Empresa vai à Justiça contra Itaú BBA na tentativa de escapar de uma dívida que pode chegar a R$ 55 milhões

David Friedlander e Marianna Aragão, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

Quatro meses depois da descoberta dos prejuízos bilionários da Aracruz, da Sadia e da Votorantim, a crise dos derivativos cambiais ainda é uma história cheia de lacunas. Ninguém sabe quantas empresas foram afetadas. Praticamente só apareceram as de capital aberto, que não tinham como esconder as perdas. Muitas outras, de capital fechado, menores e nem exportadoras são, continuam em silêncio. A maioria preferiu fazer acordo com os bancos e refinanciar os débitos a encarar uma briga na Justiça.A Tok & Stok, uma das maiores redes de lojas de móveis e acessórios para casa do País, foi uma das poucas que recorreram aos tribunais para tentar escapar de um prejuízo milionário com as operações. Ela questiona uma dívida que pode chegar a R$ 55 milhões com o Itaú BBA decorrente dos contratos com derivativos de câmbio.A Tok & Stok não exporta seus produtos e importa muito pouco. Mas, de uma hora para outra, viu-se em apuros por causa da disparada do dólar, em setembro, com a crise econômica mundial. A origem dos prejuízos são três financiamentos, no valor total de R$ 29,3 milhões. Para reduzir os juros cobrados da Tok & Stok, o Itaú BBA montou operações que associavam os empréstimos a apostas na queda do dólar no mercado futuro, os tais derivativos cambiais.A lógica era a seguinte: enquanto a cotação da moeda americana continuasse baixa e a aposta estivesse certa, a Tok & Stok pagaria pelos financiamentos juros inferiores aos de mercado. Em contrapartida, a empresa teria de pagar somas muito maiores caso a cotação do dólar ultrapassasse determinado valor, ao redor de R$ 2. Como esse cenário parecia altamente improvável até setembro - no começo de agosto, o dólar estava a R$ 1,56 - os derivativos cambiais tornaram-se um negócio irresistível para muitos empresários.Na tentativa de derrubar a dívida nos tribunais, os advogados da Tok & Stok afirmam que a empresa não foi devidamente advertida sobre os riscos da operação. Alegam também que os contratos foram assinados por executivos que não teriam poderes para tanto, sem o conhecimento dos donos da empresa e pedem ao juiz a anulação dos contratos.A Tok & Stok apela também para a desigualdade dos contratos. Segundo as contas da empresa, o benefício máximo que ela poderia obter com a operação seria ínfimo perto do risco que correu: a economia com a redução de juros nos financiamentos chegaria a pouco mais de R$ 350 mil, contra os R$ 55 milhões que ficou sujeita a pagar com a disparada do dólar. Com faturamento bruto de R$ 700 milhões no ano passado, 27 lojas no Brasil e planos de abrir o capital no futuro, a Tok & Stok decidiu não pagar nenhuma prestação da dívida com o Itaú BBA. Pessoas ligadas à empresa dizem que o dono, Régis Dubrule, ficou sabendo do prejuízo por telefone, quando inaugurava uma loja no Rio de Janeiro. Na volta para São Paulo, demitiu o diretor responsável pelas operações.Em sua contestação, o Itaú BBA afirma que a Tok & Stok sabia o que estava fazendo e possui documentos e gravações de conversas entre funcionários da empresa e do banco para comprovar. Procurados, Tok & Stok e Itaú BBA não quiseram se pronunciar.As operações com derivativos cambiais são comuns no mercado financeiro. Na essência, são feitas por empresas que atuam no comércio exterior para se proteger de oscilações bruscas no câmbio, um mecanismo conhecido como hedge. "Passamos muito tempo com o dólar baixo, e os exportadores usaram os derivativos para melhorar sua rentabilidade", diz o professor de derivativos e risco do Ibmec São Paulo, Alexandre Chaia. No começo do ano passado, os derivativos foram apresentados a todo tipo de empresa, como financiamentos com taxas de juros menores que as usuais. Muitos bancos fizeram essas operações além do Itaú BBA, incluindo o Unibanco, o HSBC, o Santander, o Credit Suisse e Deutsche Bank.O empresário João Resio, dono da Damarfe, uma fábrica de produtos para piscina em Diadema (SP), firmou um desses contratos com o Itaú em agosto passado. Segundo Resio, o gerente da instituição procurou-o para oferecer uma "operação diferente", que permitiria diminuir de 1,70% para 1,57% a taxa mensal de juros de uma dívida de R$ 400 mil. Ele afirma não ter sido informado que a operação era atrelada à variação cambial. "A proposta parecia ser uma simples renegociação de dívida. Assinei na mesma hora", diz. Dois meses depois, Resio viu-se diante de uma dívida de R$ 95 mil, que pode chegar, segundo ele, a R$ 500 mil em abril, quando vence a última parcela do contrato. O empresário está questionando o contrato na Justiça. O Itaú não quis se manifestar."Esses contratos foram uma criação dos bancos para atender grandes empresas exportadoras, mas acabaram virando uma operação de agência, oferecido a todo tipo de empresa", diz Miguel Bechara Júnior, advogado da Damarfe. Seu escritório recebeu consultas de 17 empresas de pequeno e médio portes que tiveram prejuízos com as operações. Apenas quatro decidiram entrar na Justiça. Dessas, três desistiram no meio do caminho. No escritório do advogado Pierre Moreau, a maioria das companhias também prefere negociar. Segundo ele, das 40 empresas que o procuraram nos últimos meses, 20 já fecharam acordos. "Em um momento de crise como o atual, é complicado brigar com banco", afirma Moreau.

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