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Tolerância e responsabilidade

Que o próximo ano não não seja desperdiçado, porque estamos atrasados

Zeina Latif *, O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2017 | 05h00

O balanço do ano foi positivo na economia. Foram aprovadas importantes reformas e o resultado foi a surpreendente melhora dos indicadores econômicos. Para se ter uma ideia, ao fim de 2016, os analistas projetavam para 2017 a taxa de inflação em 4,9%, a taxa Selic em 10,25% e o crescimento do PIB em 0,5%. A expectativa atual da inflação está em 2,8%, a taxa Selic caiu para 7% e o País deverá crescer 1%. Vale a pena seguir os manuais e adotar políticas públicas com embasamento técnico.

Há outras reformas na fila de espera para serem votadas. Que 2018 não seja desperdiçado, pois estamos atrasados.

É importante também que o discurso econômico na campanha eleitoral seja responsável. A melhora do ambiente econômico, que vem alimentando a confiança de consumidores e empresários, contribui para isso e reduz o apelo de discursos populistas.

O momento pede diálogo. O desequilíbrio das contas públicas preocupa e requer apontar uma saída para a sociedade, principalmente aos jovens que estão no desalento. O debate eleitoral precisa ser construtivo, com propostas de projeto para o Brasil, em vez da lamentável campanha de 2014, que escondeu os graves problemas enfrentados pelo País. 

A responsabilidade dos candidatos, no entanto, não deveria se circunscrever ao debate econômico. Deve-se evitar discursos de salvador da pátria ou combater vilões. A divisão da sociedade na campanha de 2014 não fez bem ao País. Que o debate eleitoral ajude os eleitores a votarem com a cabeça, e não com o fígado. 

O País precisa de mais coesão para superar a grave crise e voltar a crescer. Que em 2018 estejamos mais unidos.

O trabalho acadêmico de William Easterly e coautores (2006) mostra que as sociedades mais coesas, o que significa mais tolerantes à diversidade e às divergências, resultam em melhores instituições e maior crescimento econômico. Esses casos de maior sucesso não são necessariamente de sociedades homogêneas demograficamente. O que importa é a capacidade de aproveitar a diversidade de opiniões, de ideias e de talentos.

A coesão social contribui para implementar reformas pró-crescimento, pois produz a confiança e a paciência necessárias para as reformas, cujos custos no curto prazo são mais do que compensados pelo crescimento da renda e do emprego no longo prazo.

Easterly e seus colaboradores defendem que as crises são resolvidas mais facilmente em sociedades mais coesas. Dani Rodrik (1999) já havia explorado esse tema quando estudou a reação dos países às crises ocorridas entre meados dos anos 70 e fim dos anos 90. Os países que tiveram maior queda de crescimento foram aqueles com maior fragmentação, em meio a frágeis mecanismos de resolução de conflito – instituições governamentais, estado de direito, direitos democráticos e redes de segurança social.

A propósito, seria ousadia propor que o maior desenvolvimento econômico de São Paulo no século passado decorreu de sua maior coesão social – como na Revolução Constitucionalista de 1932, que contou com a colaboração e doações de muitas famílias?

Como nutrir a coesão? As políticas públicas certamente jogam importante papel, como no investimento em educação e na oferta de serviços públicos de forma justa e com qualidade. Mas não se pode minimizar a responsabilidade das lideranças políticas. A coesão social se beneficia de lideranças comprometidas com o diálogo.

Políticos progressistas escolhem por construir instituições fortes e unir a sociedade. Políticos oportunistas, por outro lado, exacerbam a divergência optando pelas vitórias políticas de curto prazo. Atiçar a intolerância, no entanto, pode ser um tiro no pé, ao resultar em maior dificuldade para aprovar reformas. Melhor seria estimular a coesão social.

Que a tolerância e a responsabilidade prevaleçam em 2018.

Feliz ano-novo a todos, aos que concordam e discordam dos meus pontos de vista.

*ECONOMISTA-CHEFE DA XP INVESTIMENTOS

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