Tom suave do BC surpreende mercado

Analistas questionam confiança do Banco Central no ajuste das contas públicas

RICARDO LEOPOLDO, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2013 | 02h10

O tom "mais suave" da ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) surpreendeu o mercado, ao sugerir que o comportamento da política fiscal do governo tende à neutralidade, com menor impacto sobre a inflação. Para o estrategista-chefe do Banco Mizuho do Brasil, Luciano Rostagno, na prática, não estão sendo oferecidas diretrizes para que isso se confirme.

"Talvez o BC esteja buscando indicar qual deveria ser o comportamento da política fiscal para garantir que a inflação continue com uma trajetória descendente", avalia Rostagno. Para ele, o colegiado não necessariamente afirma que o balanço do setor público se moverá em direção à neutralidade, mas tenta orientar sobre o que deveria nortear a política fiscal. Nas próximas reuniões, segundo ele, o BC pode ter de rever a perspectiva sobre o tema, de acordo com novos dados sobre a economia.

Tony Volpon, diretor de pesquisa para a América Latina da Nomura, disse que a ata levanta pelo menos três dúvidas que deveriam ser esclarecidas pelo BC. "A primeira delas: o que levou o Copom a avaliar que a política fiscal expansionista tem condições de se tornar neutra, sendo que da ata de julho até a atual não há nenhuma indicação do governo de que isso vai acontecer, especialmente em 2014?", questionou.

Segundo Volpon, há outros dois pontos que requerem explicações. "Por que entre as duas atas de julho e agosto a cotação do câmbio subiu de R$ 2,25 para R$ 2,40, o que implica num repasse à inflação de pelo menos 0,30 ponto porcentual, mas nada nesse sentido foi mencionado pelo documento divulgado hoje (ontem)?", disse. "E por que não há nenhuma menção sobre alta de combustíveis em 2014, que é bem provável, e no entanto foi mantida a previsão de alta de 4,5% dos preços administrados para o próximo ano?"

Na avaliação de Volpon, estas são questões que poderiam ser analisadas pelo Banco Central com detalhes no relatório de inflação de setembro, que será divulgado no fim do mês. Contudo, se forem esclarecidas antes pelas autoridades do BC seria ainda melhor.

Para Alberto Ramos, diretor de pesquisas para a América Latina do Goldman Sachs, a mudança da política fiscal de "expansionista" para "neutra", que consta na ata, pode mostrar uma manifestação do Ministério da Fazenda ao BC de que procurará controlar as contas públicas a fim de gerar tal mudança no horizonte relevante. "A questão é saber se essa mudança da direção da política fiscal é crível ou não", disse.

Ele destacou não acreditar que tal movimento um pouco mais firme na gestão das contas públicas ocorrerá em 2014, ano eleitoral. "A proposta do Orçamento para o próximo ano indica que a projeção de superávit primário (2,1% do produto interno bruto) é menor do que a meta de 2013 (2,3% do PIB)."

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