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Tombini vê risco em entrada de capitais

Para presidente do BC, maior volume exige mais controle para assegurar estabilidade

FÁBIO ALVES , ENVIADO ESPECIAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2013 | 02h04

Ao tachar de "não convencionais" as ações de política monetária adotadas pelos países desenvolvidos, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, disse ontem, durante evento no Fundo Monetário Internacional (FMI), que os países emergentes são obrigados a enfrentar "grandes e voláteis" ingressos de capitais, exigindo o uso de maior controle para assegurar a estabilidade financeira e monetária.

"Sem julgar essas políticas e o impacto mais amplo que essas medidas causam na economia mundial, o excesso de ingresso de capital é uma realidade", disse Tombini durante a palestra Liberalização e Gestão de Controle de Capitais, em Washington. "Temos visto esses excessos num volume bem significativo em alguns dos grandes programas de compras de ativos adotados nos últimos anos."

Tombini informou que o BC apresentará hoje um estudo em evento da programação da reunião anual do FMI e do Banco Mundial sobre o impacto das ações de estímulo monetário pelos países desenvolvidos na economia mundial. Esse debate ganhou força depois que o governo japonês anunciou no início deste mês um agressivo programa de afrouxamento monetário, elevando as compras de ativos pelo Banco do Japão para 7 trilhões de ienes ao mês. Com o programa, o Japão deve injetar US$ 1,4 trilhão em liquidez nos mercados mundiais.

'Efeitos colaterais'. O estudo do BC é intitulado De Guerras Cambiais à Paz de Políticas sob o G-20 (numa tradução livre do inglês) e tem a assinatura do diretor de Assuntos Internacionais, Luiz Awazu Pereira da Silva. Uma das conclusões do estudo é que a política monetária "não convencional" de países avançados, embora necessária para a recuperação dessas economias, produziu "efeitos colaterais sobre os mercados emergentes, tais como o excesso de fluxo de capital, que colocou forte pressão sobre a inflação, preços de ativos domésticos e os mercados de créditos locais".

Com isso, os países emergentes têm de lançar mão de instrumentos para atingir "os objetivos de assegurar a estabilidade financeira, de um lado, e estabilidade monetária, de outro", afirmou Tombini. Segundo ele, o Brasil tem sido capaz de implementar uma política monetária independente com uma estratégia de acumulação de reservas desde o início dos anos 2000.

Assim, "o Brasil tem sido também capaz de definir uma taxa de juros adequada para atingir os objetivos de estabilidade de preços", afirmou Tombini. "Mas dependendo do tamanho, intensidade e velocidade do ingresso de capitais, isso não tem sido mais possível como antes quando o fluxo de capital em volume era considerado normal."

Até 2006, o BC conseguiu controlar o fluxo de capital estrangeiro, mas a partir de 2010 e 2011, a dimensão dos ingressos de capital tornou-se demasiadamente grande, forçando o Brasil a abrir o leque de instrumentos para lidar com a situação.

"Isso é particularmente complexo quando existem ciclos monetários doméstico e externo que não estão sincronizados, portanto um grande fluxo de capital, além de ser um risco e um perigo à estabilidade financeira, tende debilitar a política doméstica de combate à inflação", explicou.

Excessos. Assim, de acordo com Tombini, o grande leque de ferramentas lançado mão pelo governo brasileiro teve como objetivo lidar com o risco financeiro, uma vez que o crédito estava crescendo muito rapidamente e era necessário reduzir os excessos.

Para diminuir o ritmo de concessão de crédito, em particular os concedidos às famílias, o BC adotou, no fim de 2010 e início de 2011, medidas macroprudenciais, como a exigência de maiores reservas de liquidez.

"Com isso, fomos bem-sucedidos em evitar que um aumento de crédito se tornasse uma bolha de crédito, gerando uma crise financeira", disse Tombini. Segundo ele, o ingresso bruto de capitais em julho de 2010 somou cerca de US$ 96 bilhões. Mas em julho de 2011, esse ingresso saltou para US$ 170 bilhões. "Esse fluxo tornou a nossa vida mais complexa para assegurar a estabilidade financeira, de um lado, e também para combater a inflação, pois estávamos num ciclo de aperto monetário no início de 2011 e a concessão de crédito estava se acelerando."

Ao falar sobre a experiência brasileira na adoção de controle de capitais, Tombini disse que a introdução dessas medidas tem um custo, pois não são tão previsíveis quanto outras medidas macroeconômicas. "Elas certamente afetam o humor dos investidores, mas esse é um preço que tivemos de pagar."

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