Tombo da inflação e dos juros
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Tombo da inflação e dos juros

A hora é de conferir melhor esse novo tombo da inflação em 12 meses e a derrubada dos juros básicos em mais um ponto porcentual

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2017 | 21h00

Nos últimos dez dias, a economia brindou a sociedade com um punhado de boas notícias que deixaram a sensação de que a crise ficou para trás. São elas: certa recuperação do PIB, exuberância nas contas externas, melhora da indústria, disparada na produção de veículos, inflação abaixo da esperada e juros básicos (Selic) a 8,25% ao ano.

A hora é de conferir melhor esse novo tombo da inflação em 12 meses, agora para 2,46%, para o nível mais baixo desde fevereiro de 1999, e a decisão tomada pelo Copom de derrubar os juros em mais um ponto porcentual.

A evolução do IPCA de agosto, divulgada nesta quarta-feira, chegou a surpreender. O mercado apostava em algo ao redor de 0,40%, como a Pesquisa Focus do Banco Central apontou, mas ficou em 0,19%.

A principal indicação não é o número baixo, mas sua consistência. Não é resultado isolado de meia dúzia de itens, como o dos alimentos. Ao contrário, a desaceleração está espalhada e alcançou o setor de serviços. Desta vez, apenas 49% dos itens da cesta de consumo apontaram alta de preços.

Setembro continua prometendo números baixos, especialmente no segmento dos preços administrados, os determinados pelo governo ou por empresas estatais, como tarifas de energia elétrica, de telefone e de combustíveis.

O principal efeito positivo dessa inflação em queda forte é a baixa corrosão do poder de compra do trabalhador. O salário passou a render mais, já não prejudica o pagamento das dívidas das famílias quanto prejudicava com a inflação a 10% ao ano. E este é um dos fatores que explicam por que o desemprego ainda alto (de 12,8%) está sendo relativamente bem suportado.

Há duas perguntas em busca de resposta. A primeira é quanto a inflação ainda pode cair, até chegar a seu nível mais baixo. O espaço para queda já é menor. E, se for confirmada a recuperação da atividade econômica e do consumo, é possível certo retorno da alta. Por enquanto, os remarcadores de preços continuam pressionados pelo risco de encalhe de mercadoria, caso cedam à tentação de reajustes salgados demais. De todo modo, é mais provável que a inflação de 2017 fique à altura dos 3,0%.

A segunda pergunta à procura de resposta é o quanto esse espetacular recuo nos últimos 12 meses tem a ver com queda estrutural e, portanto, reflete queda consistente, e não um resultado circunstancial. Quanto a isso, não há certezas. Inflação baixa e na meta é, antes de tudo, produto do equilíbrio das contas públicas. E estas estão calamitosas, como sabemos. Pelo conteúdo do comunicado divulgado nesta quarta-feira logo após a reunião do Copom, dá para aferir que o Banco Central está se fazendo as mesmas perguntas formuladas acima.

O Copom só tem mais duas reuniões neste ano. O comunicado avança que a Selic deverá fechar o ano nos 7,25% e que, daqui para a  frente, reduzirá a dosagem dos juros. Se a inflação de 2017 terminar ao redor dos 3,0%, como mencionado acima, uma Selic de 7,25% ao fim do ano ainda deixaria os juros reais, descontada a inflação, em 4,25%, número alto demais, especialmente se a referência é uma inflação de 3,0%.

O horizonte do Banco Central, também explicitado no comunicado, é o de que a Selic chegará ao fim de 2018 nos 7,5%. Isso sugere que a política monetária fará longa pausa ao longo do ano que vem. O Banco Central não pode olhar apenas para 2017. Tem de estender seus sensores para 2018, ano de eleições, portanto, de incertezas que se somam à baixa vontade política para realizar reformas. Estas são as principais razões pelas quais, lá pelas tantas, terá de tirar o pé do acelerador e dar um tempo para os juros, a fim de conferir melhor como ficam as coisas.

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