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Tombos progressivos

O Citibank advertiu na terça-feira que o preço do minério de ferro está a caminho de um escorregão até o nível dos US$ 50 por tonelada. Hoje, está à altura dos US$ 75, menor preço em mais de cinco anos. Mas, em fevereiro de 2011, chegara muito perto dos US$ 200.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2014 | 02h04

É essa perspectiva de perda seguida de faturamento que vem derrubando as ações da Companhia Vale, uma das três maiores fornecedoras de minério de ferro do mundo. Nos últimos 12 meses, desvalorizaram-se 36%.

A derrubada das cotações é parte de fenômeno mais amplo, que alcança praticamente todas as commodities. É fator de enorme gravidade que atinge em cheio a economia do Brasil, que fatura em torno de US$ 125 bilhões por ano, apenas com exportações de commodities.

Em nenhum momento o governo Dilma deu a entender que está consciente das implicações que o fim da bonança externa, de preços exuberantes das commodities, que durou mais de dez anos, terá para a economia brasileira. Sempre que o governo se manifestou sobre o desempenho insatisfatório das exportações foi para atribuí-lo ou à ação da estiagem ou da crise externa, como se se tratasse de problemas passageiros de pronta reversão.

A queda de preços das commodities apenas episodicamente se explica por quebra de consumo global. No momento, o fator decisivo é o aumento da oferta em ritmo superior ao da demanda. Foi o que aconteceu com o petróleo, que enfrenta a revolução do xisto nos Estados Unidos. E é, também, o que está acontecendo com o minério de ferro. Não foram apenas as três grandes (Vale, Rio Tinto e BHP Billiton) que intensificaram investimentos e produção. Milhares de pequenas mineradoras aproveitaram os preços recordes para empurrar a produção para todos os mercados do planeta.

Ainda que insatisfatório, há, sim, crescimento econômico global. Em 2014, o PIB dos Estados Unidos deve avançar 2,2%; o da área do euro, 0,8%; o do Japão, 1,0%. A China, principal importadora de matérias-primas, apenas deixou de crescer àquela velocidade, de 10% ou 12% ao ano. Hoje, sua atividade econômica marcha a ainda altamente invejáveis 7,5% ao ano.

A derrubada dos preços do petróleo e das demais commodities tem densidade para produzir grandes vítimas e mais crises. A Rússia, importante exportadora de petróleo e gás, deverá passar por graves apuros. A Venezuela, que já vinha afundando, vai afundar mais ainda, porque seu orçamento só conseguiria fechar se o petróleo estivesse acima dos US$ 120 por barril de 159 litros (hoje está a US$ 77). A Argentina, que vem sangrando há anos, vai sangrar ainda mais. E, ontem, o secretário do Tesouro da Austrália, Joe Hockey, alarmado com a quebra das exportações de minério de ferro, pediu diversificação da economia.

O Brasil já vinha acusando deterioração no balanço de pagamentos, a contabilidade que registra entrada e saída de recursos. Mas até agora ostentava invejável superávit no intercâmbio de mercadorias (balança comercial). Agora tenderá a produzir déficit, possivelmente já neste ano. E o enfraquecimento das contas externas exigirá mais concessões e mais empenho em atrair dólares para garantir os pagamentos sem perda das reservas.

A perda de faturamento com exportações não é o único impacto na economia brasileira. À medida que as receitas dos exportadores também encolherem, menos recursos circularão pela economia, com prejuízo inevitável para o consumo e para o emprego.

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