Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

‘Tornar o País atrativo é ter menos impostos’, diz presidente da McKinsey

Para executivo, com reforma tributária nos EUA, Brasil pode ter mais dificuldade para atrair investimentos

Entrevista com

Nicola Calicchio, presidente da McKinsey na América Latina

Renata Agostini, O Estado de S. Paulo

23 Dezembro 2017 | 05h00

Para o presidente da McKinsey na América Latina, Nicola Calicchio, ficou mais difícil para o Brasil atrair investimentos após a reforma tributária nos Estados Unidos, que cortará impostos para empresas. A tendência é que outros países sigam o exemplo, afirma. Segundo ele, o Brasil não pode pensar em onerar o setor produtivo para resolver a crise fiscal. “Num momento em que os EUA ficam mais atrativos, falamos em aumentar imposto. Alô! Vamos fazer o Brasil ser menos competitivo ainda?”, diz. A seguir os principais trechos da entrevista ao Estado.

Quais os efeitos da reforma tributária nos EUA para o Brasil?

Haverá impacto enorme nos outros países. É extraordinário para os EUA. Estimamos que será em torno de US$ 500 bilhões de renúncia fiscal, muito menos do que tem se falado. E há os benefícios. Primeiro, quantas empresas deixarão de se mudar para a Irlanda? Segundo, que é onde pega o Brasil, o retorno. A multinacional vem para a América Latina esperando retorno maior porque há risco maior. Ela vê uma aquisição no Brasil com retorno de 13% após impostos e compara com os EUA, onde seria 10%. Mas, quando o imposto lá cai, a taxa vai para os mesmos 13%. A atratividade relativa de se investir nos EUA fica maior. Quando há um país rico entrando num círculo virtuoso, as empresas têm interesse de investir mais lá. E nós no Brasil, num momento em que precisamos atrair capital, falamos em aumentar imposto. Alô! Vamos fazer o Brasil ser menos competitivo ainda? Na nossa visão, todos os países se sentirão pressionados a criar condições mais favoráveis à atração de investimento.

O Brasil perderá mais que outros na América Latina?

Todo mundo estará em situação difícil, mas o Brasil precisa mais, porque a taxa de poupança é menor. A gente tem uma dificuldade enorme de cortar benefícios e a solução então é: vamos aumentar impostos. Poxa, direção errada. O Brasil precisa diminuir imposto e não aumentar. O capital é livre. Ele vai para onde há melhores condições. E as condições nos EUA vão melhorar para empresas americanas e para as que não são americanas. 

Tivemos uma experiência desastrada com desonerações e vivemos grave crise fiscal. Como falar em corte de impostos?

A solução passa por aumento da produtividade no Estado brasileiro com gestão e abertura da economia. Por meio da gestão, é possível aumentar dramaticamente a arrecadação sem elevar alíquotas de imposto. A forma como o Estado cobra hoje é absolutamente ineficiente. Trata todos da mesma forma, mas eles não são. Tem de usar tecnologia para criar base de dados e fazer análises que identifiquem os desvios. 

O sistema hoje favorece a inadimplência de empresas?

Favorece. A carteira de dívida ativa é enorme, a chance de você ser cobrado é baixa, pode-se postergar pagamento por muito tempo. E depois ainda vem o Refis (programas de parcelamento de débito) em condições muito favoráveis. O Estado de Goiás, onde fizemos um trabalho para o governo, mostrou que você consegue dobrar a recuperação da dívida em atraso. O primeiro efeito é justiça, porque você não tira o incentivo das empresas sérias. O segundo é que, na hora que você aumenta a arrecadação, pode gastar mais ou reduzir o imposto. Há efeito sobre o estoque antigo, mas a taxa de inadimplência também diminui.

Considerando o movimento dos EUA, o Brasil pode adotar medidas reativas de curto prazo?

Sou cético em relação a balas de prata, salvadores da pátria. Chegamos nesse ponto no Brasil porque nos últimos 50 anos crescemos em função de “boom demográfico”, e não de produtividade. Queremos deixar o Brasil mais atrativo, e isso é fazer um País com menos impostos. Como chegar lá, podemos discutir. Mas não podemos debater se temos de baixar carga tributária. Para competir no mundo, é inexorável. Não dá para evitar.

Temos a reforma nos EUA, taxas de juros em elevação lá fora. E ainda por cima teremos eleições aqui. Como vê o cenário?

Não entendo nada de política. O que sei que temos de fazer é tornar o Brasil mais atrativo comparativamente. Precisamos abrir o País. Veja a matriz de exportação brasileira em 2000: era predominantemente de valor adicionado, aviões. Agora é soja. Nada contra, mas queremos ser apenas a fazenda do mundo? Há ainda outro tipo de abertura: o mundo tem um monte de imigrantes e eles são elementos fundamentais para o crescimento. Qual nossa política de atração? Quantos professores das nossas universidades são estrangeiros? Vemos saída de talentos. 

Há o problema de dinheiro.

Há um monte de outras coisas para se fazer. A concessão de vistos para profissionais qualificados deveria ser facilitada. Antigamente as nações brigavam por terra. A guerra agora é por cérebro. Porque o Vale do Silício cresce? Porque 50% dos empreendedores são estrangeiros. Temos de ter uma política para atrair 50 mil sírios, indianos, chineses altamente qualificados. Mas, não, a gente quer fechar, porque o Brasil é nosso, o petróleo é nosso, é tudo nosso. Nossa mentalidade é provinciana, e não de um mundo globalizado, que você tem de atrair o melhor do mundo. Outra coisa é a educação para o emprego. Com a automação, um monte de profissões começam a ser questionadas. É algo que está acontecendo no mundo inteiro. Vemos no Brasil pouco debate, sendo um País já altamente deficitário.

Como acelerar a abertura?

Passa por acordos comerciais bilaterais. Vemos a dificuldade de avanço das rodadas multilaterais. É fundamental ter acordos bilaterais com blocos econômicos grandes. Nada contra fazer com a Venezuela, mas nossa política externa não pode ser apenas isso. Ignorar os países asiáticos, os EUA. O que a China historicamente faz? Importa, aprende e vende.

O que dizer para empresários que temem a abertura, porque acham que vão quebrar?

Podemos ir por vários caminhos, desde que a natureza é assim mesmo, temos adaptação, a lei do mais forte. O ser humano dominou o mundo não por ser mais alto ou forte, mas por ser o mais adaptável. Então, bem-vindo ao mundo. Como dizia Guimarães Rosa, sapo não pula por boniteza, mas por precisão. É necessário ter uma força para fazer com que as empresas se mexam. 

 

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