Torres de transmissão despontam no Amazonas

Para interligar o sistema elétrico nacional, foram fincados 2.304 monumentos gigantes

RENÉE PEREIRA, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2013 | 02h07

Nos últimos dois anos, a Floresta Amazônica ganhou elementos que destoam de sua diversidade natural. Entre árvores frondosas, cachoeiras exuberantes e rios enormes, 2.304 torres gigantes de transmissão, moldadas por engenheiros e projetistas, foram levantadas na região para interligar o sistema elétrico nacional. Algumas delas, por muito pouco, não alcançaram o tamanho de um dos monumentos mais famosos do mundo: a Torre Eiffel, em Paris.

É o caso das estruturas levantadas em Jurupari, perto do pequeno município de Almeirim, no Pará. Para conseguir atravessar os cabos elétricos nos 2,5 quilômetros (km) do Rio Amazonas, a solução foi construir torres de cerca de 300 metros de altura nas duas margens - a Torre Eiffel tem 324 metros, sendo 24 deles referentes à antena de transmissão. Trata-se da primeira ação do tipo no principal rio do País, o que significou ter de conviver com situações inusitadas e desconhecidas pelos profissionais da obra, como as dificuldades de acesso e a falta de infraestrutura.

As torres foram feitas de aço e pesam em torno de 2.400 toneladas cada. Além disso, para sustentar o peso dos cabos de transmissão, as duas estruturas tiveram de ser erguidas sobre uma base equivalente a dois campos de futebol, com 390 pilastras de concreto fincadas a 30 metros de profundidade. O objetivo do empreendimento, tocado pela espanhola Isolux Córsan e que será entregue a partir do mês que vem, é ligar a Região Norte ao sistema nacional de energia elétrica.

Hoje, a população local é atendida por usinas térmicas e geradores ineficientes, afirma o diretor executivo da Associação Brasileira das Grandes Empresas de Transmissão de Energia (Abrate), Cesar Pinto. Como a energia produzida por essas unidades é extremamente cara (e poluente), consumidores do Brasil inteiro colaboram mensalmente em sua conta de luz com um valor referente aos gastos da Região Norte.

Neste ano, o subsídio calculado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) está em R$ 2,3 bilhões. A tendência é que, com a linha de transmissão, esses custos sejam reduzidos - e no futuro talvez eliminados. O empreendimento permitirá levar energia da Hidrelétrica de Tucuruí e Belo Monte para Manaus, por exemplo.

A interligação foi dividida em três lotes leiloados em 2008. Dois deles - Tucuruí-Jurupari e Macapá-Oriximiná - foram arrematados pela espanhola Isolux. O terceiro trecho - entre Oriximiná e Manaus - ficou com o consórcio formado pelas estatais Eletronorte, Chesf e a espanhola Abengoa e foi concluído em 29 de fevereiro. No total, são 1,8 mil km de linhas de transmissão, que somam investimentos R$ 3,2 bilhões de investimentos.

Atrasos. Os dois primeiros trechos, da Isolux, serão inaugurados em maio e junho, possivelmente com a presença da presidente Dilma Rousseff. O projeto - com 1,2 mil km de extensão - deveria ter sido concluído em outubro de 2011, mas teve problemas para conseguir as autorizações do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama). Segundo a multinacional espanhola, a expectativa inicial era obter a licença ambiental no prazo de um ano. Mas, por causa de toda complexidade do projeto e da região, só foi liberada em 32 meses.

Se o processo ambiental foi complicado, a construção demandou ainda mais esforços. A maior dificuldade foi a logística da região. Os materiais de construção, máquinas e equipamentos (foram 186 veículos de médio e grande porte) partiram de várias partes do Brasil em caminhões até Belém (PA). Dali seguiam em barcaças até as áreas mais próximas da construção, numa viagem que chegava a demorar até 30 dias, dependendo das condições do tempo. Para entrar na mata fechada, todos os acessos tiveram de ser abertos pela empresa.

Desmatamento. Ao contrário das demais conexões, o linhão de Tucuruí, como tem sido chamado, teve de obedecer a alguns parâmetros específicos definidos pelo Ibama. Em vez de 12 metros de largura, a faixa de domínio para construção das torres foi estipulada em 7 metros. O objetivo era diminuir o desmatamento, que teve de ser feito de forma manual. Outra medida para reduzir os impactos ambientais foi a construção das torres acima das copas das árvores. Além das duas estruturas de 300 metros, as demais têm altura entre 43 e 135 metros.

Nos dois trechos da Isolux, foram gastos 7,7 mil toneladas de aço, 28 mil km de cabos de transmissão de energia e 2.400 km de fibra ótica. A obra demandou 4 mil operários, selecionados na região. Por causa da localização e do difícil acesso, mais da metade deles teve de ficar alojado em um dos 14 acampamentos construídos na região. Ao final do projeto, as instalações serão doadas para as comunidades locais usarem como escolas, por exemplo.

"A construção deste linhão é mais um avanço da fronteira elétrica rumo ao Norte", afirma o professor da UFRJ, Nivalde Castro. Ao chegar a Manaus, diz ele, a linha de transmissão vai interligar 70% do consumo do sistema isolado ao resto do País. Além disso, a tendência é melhorar a qualidade do abastecimento de energia da região, campeã em apagões.

Por outro lado, o linhão está localizado numa área de muita instabilidade de condições climáticas. "Há temporais terríveis e alta frequência de descargas elétricas que podem desligar o linhão", completa o presidente da Associação Brasileira de Geração Flexível (Abragef), Marco Antonio Veloso.

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