Reuters/Paulo Whitaker
Reuters/Paulo Whitaker

Trabalhador pode transferir conta salário para fintech; entenda

Resolução em vigor desde ontem permite que pagamento seja feito também em startups financeiras

Jéssica Alves, O Estado de S. Paulo

02 Julho 2018 | 05h00

Uma nova regra do Conselho Monetário Nacional (CMN) que começou a vigorar ontem permite que os trabalhadores transfiram o pagamento da conta salário não apenas para contas de outros bancos, mas também para contas de startups financeiras, ou fintechs, e de outras empresas não bancárias. Para especialistas, a medida aprovada em fevereiro abre um leque de opções de serviços, taxas e empresas disponíveis para o empregado, já que a conta salário tem uma série de restrições. 

Esse tipo de conta não tem custos, fica no banco escolhido pelo patrão e só ele pode fazer depósitos. Além disso, há limites de saque, horário, cheques e não é possível fazer compras online. Antes da nova regra, para fugir desses entraves na hora de mexer no próprio dinheiro, o trabalhador deveria ir até o banco escolhido pelo patrão para transferir o pagamento para uma conta corrente, operada também por um banco e sujeita a taxas. 

Agora, ele também poderá levar seu salário, sem custo, para as contas de pagamento pré-paga, operadas por instituições não financeiras, como fintechs, instituições de pagamento e emissoras de cartões de crédito. Basta que o dinheiro caia nessa conta para que o empregado possa pagar contas, sacar sem limites de horário, fazer compras via aplicativos, até obter crédito e fazer investimentos. 

Como ainda estão se consolidando no mercado, essas empresas, como Nubank, Mercado Pago e PayPal, por exemplo, costumam oferecer taxas mais baixas ou zero e serviços diferenciados. 

O obstáculo das fintechs na hora de conquistar os clientes está em construir o grau de relacionamento e credibilidade dos bancos, que já estão há séculos no País, explica Claudio Felisoni, coordenador do Labfin da FIA (Fundação Instituto de Administração). Esse histórico, na opinião dele, pesa na hora da escolha. 

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Além de dar ao empregado mais opções, a outra vantagem da nova norma do BC é que a mudança pode ser feita sem que a necessidade de se comunicar ao banco que hospeda a conta salário. As instituições conversam entre si. Na opinião de Renata Pedro, advogada da Proteste, a portabilidade já na instituição de destino, como acontece no caso da troca de operadoras de celular, protege o consumidor do “conto do gerente” e de promessas feitas só para não perder o cliente. 

Mas os benefícios da nova regra do BC também podem vir acompanhados de algumas armadilhas, explica a advogada. Entre elas estão a venda casada de produtos e a oferta de uma cesta de produtos que não condiz com o perfil do cliente. Também é preciso ficar atento a taxas mais baixas que só valem para os primeiros meses e depois ficam mais caras. 

Futuro.  Na avaliação de Felisoni, essa migração não se dará da noite para o dia, mas vai gerar uma disputa entre as instituições capaz de pulverizar o setor financeiro no País, ainda concentrado em cinco grandes bancos. “Não acredito que eles vão dificultar operacionalmente, mas eles não vão abrir mão dessas contas de maneira pacífica e devem competir”, diz.

De olho nessa competição, a empresa de pagamentos WEX, por exemplo, que antes trabalhava a conta pré-paga só com pessoas jurídicas, vai passar a oferecer o serviço para pessoa física graças a novas regra do BC. José Roberto Kracochansky, presidente da empresa, acredita que custos menores e abertura de conta sem burocracia são os chamarizes para os clientes saíram dos bancos e partirem para novas empresas. 

Para José Luiz Rodrigues, conselheiro da ABFintechs, a nova regra do BC é ainda um passo para o movimento de open banking – que, na prática, permite que dados bancários de clientes sejam compartilhados com terceiros. “Não é desbancarização, é propor mais acesso. O modelo bancário está mudando no mundo todo e todas as instituições sabem disso”, resume.

Bancos. Para Flavio Iglesias, diretor do Itaú Unibanco, a iniciativa é positiva pois contribuirá para modernizar e aprimorar ainda mais o sistema financeiro no Brasil, oferecendo mais alternativas de produtos e serviços aos clientes.

A Caixa Econômica Federal informou que a escolha do banco a receber o salário é sempre facultada ao cliente, em alinhamento às normas vigentes e respeitando seu direito de comparação e preferência. Para aqueles que manifestam interesse em receber o crédito de salário nainstiuição, existe a opção de recebimento em conta corrente, com descontos e isenções nas tarifas praticadas, além de acesso a linha de investimentos, seguros e crédito comercial e habitacional.

Por meio de nota, o Banco do Brasil afirma que as tarifas pagas em contas não salário podem ser convertidas em recompensas, os clientes ainda fazem saque com o celular ou por biometria - ambos sem a necessidade do cartão -, contam ainda com gerenciador financeiro gratuito e depósito de cheque no app e atendimento pelo Facebook e Twitter.

 

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