Yara Nardi/Reuters
Yara Nardi/Reuters

Trabalhadores em casa: empresas agem para conter o coronavírus

Ao se espalhar pela Europa e pela Ásia, o vírus se torna uma ameaça mais imediata a todos os tipos de negócio

David Yaffe-Bellany, The New York Times

27 de fevereiro de 2020 | 12h47

Uma empresa petrolífera e um grupo de mídia de Londres disseram a centenas de funcionários para trabalharem de casa. Uma companhia gigante da televisão está impedindo que pessoas que visitaram certos países entrem em seus escritórios na Europa. Uma empresa aérea alemã pediu aos trabalhadores que tirassem licença sem remuneração.

Por semanas, o surto de coronavírus na China chacoalhou as cadeias de suprimentos globais, causando prejuízos às principais empresas do mundo, embora muitas vezes de maneira indireta.

Agora, ao se espalhar pela Europa e pela Ásia, o vírus está se tornando uma ameaça mais imediata a todos os tipos de negócio. De Milão a Berlim e Londres, empresas de praticamente todos os setores estão refinando seus protocolos de emergência ou mandando funcionários para casa, na tentativa de evitar um surto.

Nesta semana, a Chevron instruiu que 300 funcionários de um de seus escritórios em Londres trabalhassem de casa, depois que um empregado que voltou da Itália desenvolveu sintomas semelhantes aos da gripe. O grupo de mídia OMG tomou a mesma providência no distrito de Fitzrovia, também em Londres, mandando para casa cerca de mil funcionários, depois que um membro da equipe que esteve recentemente em Cingapura começou a apresentar sintomas.

A Sky, empresa britânica de televisão, começou a rastrear visitantes em vários de seus escritórios europeus, informando aos funcionários que seriam barrados os convidados que viajaram recentemente a países de “alto risco”, como China e Japão.

A Lufthansa, principal companhia aérea da Alemanha, congelou as contratações e ofereceu aos funcionários licenças não remuneradas, à medida que se prepara para a intensificação dos efeitos econômicos do vírus. E, na terça-feira, 25, a agência de publicidade Dentsu instruiu todos os funcionários de sua sede em Tóquio a trabalharem de casa.

Na maioria dos casos, essas perturbações no cotidiano do trabalho se limitam à Europa e à Ásia. Na China, grande parte das empresas parou em janeiro, enquanto o governo trabalhava para conter o surto, que infectou dezenas de milhares de pessoas e já matou mais de 2,7 mil.

Na Itália, centro do surto na Europa, várias empresas, entre elas a gigante de seguros Generali e a marca de moda Armani, adotaram políticas de trabalho em casa em diferentes graus.

Stefano Conforti, estrategista de marketing digital que normalmente se dirige a um espaço de coworking lotado em Milão, trabalhou de casa a semana toda, vestido de jeans e suéter. Ele até pensou em passar parte do dia de trabalho na biblioteca local.

“Trabalhar de casa com certeza é confortável, mas, pessoalmente, gosto de ir ao escritório, passar um tempo com os colegas, viver nesse tipo de ambiente”, disse Conforti. “Minha posição não exige presença física. Minha preocupação são as pessoas que trabalham como garçom, por exemplo, e esse tipo de emergência traz problemas para elas, claro.”

Em breve, pode ser que empresas dos Estados Unidos também precisem mandar os trabalhadores para casa ou tomar outras precauções. Na terça-feira, uma das principais autoridades federais de saúde, Nancy Messonnier, pediu às cidades que planejassem “medidas de distanciamento social”, como dividir os alunos em turmas menores ou até mesmo fechar as escolas. Ela também disse que as empresas devem providenciar que os funcionários trabalhem de casa.

Em algumas empresas, como as de marketing ou as startups de tecnologia, que já possuem generosas políticas de trabalho em casa, esses ajustes devem ser relativamente fáceis. Mas canais de trabalho online não ajudam muito no setor de serviços, onde uma escassez de mão de obra de longa data faz com que muitos empresários tenham dificuldade em encontrar trabalhadores.

“Tudo que venha a reduzir a força de trabalho traria ainda mais desafios para os restaurantes locais, alguns dos quais já operam com pouca equipe”, disse Andrew Rigie, diretor executivo da Aliança de Serviços da Cidade de Nova York. “Esperamos que não chegue a esse ponto.”

Aprendizado da Sars

Não é a primeira vez que empresas dos Estados Unidos são forçadas a considerar opções de emergência ou a elaborar políticas de trabalho em casa. O ponto de referência histórico mais próximo é o surto de Sars em 2002 e 2003 - uma crise que levou muitas empresas a traçar planos emergenciais.

“As empresas provavelmente têm esses planos guardados em algum lugar e eles não devem ser muito diferentes do que eram há 20 anos”, disse Peter Cappelli, professor de administração e especialista em recursos humanos na Wharton School of Business da Universidade da Pensilvânia. “Já ajuda muito entender em quais cargos as pessoas realmente precisam estar no escritório para manter as coisas funcionando.”

Para alguns funcionários, trabalhar de casa será um alívio - uma maneira de escapar do trânsito e de colegas de escritório barulhentos. Para outros, essa mudança pode causar problemas, seja a distração de crianças pequenas ou a dificuldade para colaborar em certos projetos.

“Há pessoas que preferem sair de casa, principalmente aquelas que organizaram suas vidas em torno do cuidado infantil”, disse Cappelli. “Algumas pessoas vão achar tudo isso bem desagradável.” / Tradução de Renato Prelorentzou

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