Werther Santana/Estadão - 26/10/2020
Espaços compartilhados para o trabalho remoto: modelo híbrido vem para ficar e mercado corre para se adaptar ao novo cenário.  Werther Santana/Estadão - 26/10/2020

Trabalho em casa por causa da pandemia exige adaptação em projetos

Ambientes mais amplos e até espaço específico para receber compras online passam a ser previstos em obras

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00

De repente, a necessidade de isolamento social fez as pessoas perceberem como o ar livre, ou um local em que bata sol, é importante dentro de casa. Ou como um lugar quieto em um cantinho é determinante para o home office ser produtivo. “Uma das tendências que vieram para ficar são os ambientes mais amplos, espaços arejados com iluminação e varandas que possam ser flexíveis”, afirma Bianca Setin, diretora de Operações da Setin Incorporadora.

Segundo a executiva, durante a pandemia, até edifícios que ainda estavam em construção foram adaptados para essa nova realidade.

Outra questão diz respeito às áreas comuns, que também passam por mudanças. Com a explosão das compras online, passou a ser fundamental, segundo Bianca, que os prédios tenham espaço para receber as compras dos moradores. Uma das ferramentas em uso nestes locais são os lockers inteligentes. Os equipamentos funcionam em sintonia com o sistema do correio. Quando o produto comprado pela internet chega, o cliente é avisado por meio do celular.

A partir de uma análise de dados gerados pelos usuários dos 135 mil imóveis geridos pela Housi, Alexandre Frankel, CEO da empresa, enumera várias macrotendências que ele considera fundamentais para a análise do mercado imobiliário hoje. O tempo médio das pessoas em casa passou de 12 horas para 20 horas. Entre os millennials, 80% têm preferência pelo uso do imóvel em vez da propriedade. A moradia, além de os contratos flexíveis, também é um local de consumo e, portanto, os prédios precisam estar preparados para isso, como também afirmou Bianca Setin.

“O êxodo urbano é uma verdade”, diz Frankel. Os dados da Housi mostram que as pessoas que podem estão realmente migrando para cidades menores, onde a qualidade de vida é maior e o custo menor. “E, definitivamente, não podem existir mais imóveis que estejam desconectados das tecnologias e dos serviços.”

Contracorrente

Mas há tendências testadas durante a pandemia que talvez não se solidifiquem tanto assim, mostra a experiência da Loft. “Nós desenvolvemos um sistema em que a compra de um imóvel pode ser feita de forma 100% online. Fomos os primeiros a fazer isso”, afirma Marcio Reis, vice-presidente de produtos da Loft. Mas a experiência na prática, segundo o executivo, mostrou que praticamente ninguém abre mão da figura do corretor ou de fazer uma visita presencial ao local antes de fechar o negócio.

“As questões burocráticas, como assinaturas de contrato e obtenção de financiamento, aí sim, todos preferem fazer 100% digital.”

Trabalho flexível

A discussão pode ser um pouco sobre o grau da mudança, mas que ela é inevitável isto poucos discordam. “A cadeia de comando e controle sofreu uma disrupção. Houve uma mudança na relação chefe e subordinado. O modelo híbrido veio para ficar”, afirma Claudia Woods, CEO da WeWork na América Latina.

Segundo ela, este é um modelo ainda em amadurecimento, mas ele deve se estabilizar com o funcionário podendo dividir sua semana entre dois ou três dias em casa e os demais no escritório. “A flexibilização é um benefício que vai passar a ser dado pelo RH das empresas”, segundo a executiva.

De acordo com Claudia, hoje, 50% do portfólio da empresa já é formado por grandes empresas, buscando formas de otimizar e rentabilizar o uso do espaço. Com a tendência de ocorrer um enxugamento dos espaços das empresas, ceder vários metros quadrados para os coworkings é apenas parte da solução, segundo Roberto Patiño, diretor da JLL.

De acordo com ele, se a tendência é um terço, por exemplo, de um espaço de 10 mil m2 virar local de trabalho compartilhado, outro um terço também deve ser ressignificado e alugado para outros fins, principalmente em lugares chamados de “primers”. São regiões, por exemplo, segundo Patiño, dentro de anéis da cidade onde a questão dos serviços oferecidos para as pessoas será fundamental.

Pesquisa

Pesquisas feitas entre funcionários que hoje estão trabalhando em casa mostram que eles se adaptaram às atividades em casa e indicam o modelo híbrido como o mais adequado para a nova realidade do mercado de trabalho.

Um dos levantamentos mais recentes foi feito pelo Talenses Group com a Fundação Dom Cabral (FDC), segundo o qual 72,7% dos entrevistados acreditam que o regime misto é o que mais se adapta às funções que realizam. Esse desejo dos profissionais contrasta com os planos das empresas. Pesquisa da KPMG feita entre julho e agosto mostra que 52% das companhias desejam que a operação presencial retorne ainda neste ano. Outras 15% já descartaram completamente o home office e querem voltar ao modelo pré-pandemia.  

Sondagens

  • 72,7% dos entrevistados em uma pesquisa da Talenses Group com a Fundação Dom Cabral (FDC) acreditam que o regime misto é o que mais se adapta às funções que realizam
  • 23% preferem o home office integral e 4,41% querem votam no regime totalmente presencial. A pesquisa foi realizada em setembro deste ano com 686 trabalhadores
  • 86,3% dos entrevistados relatam que a produtividade é alta ou muito alta no home office, sem contar que a vida pessoal ganha novos sentidos
  • 52% das companhias desejam que a operação presencial retorne ainda neste ano, conforme pesquisa da KPMG feita entre julho e agosto
  • 15% já descartaram completamente o home office e querem voltar ao modelo pré-pandemia, com trabalho todo presencial

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Summit Imobiliário: Mesmo com oscilações, setor deve manter um bom ritmo

Apesar de um agosto com recorde, 3.º trimestre tem queda de 1,7% nas vendas; clima no segmento, porém, é de otimismo para 2022

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00

Agosto de 2021 entrou para a história do mercado imobiliário de São Paulo. As 6.611 unidades vendidas não apenas refletem um recorde para o ano como ainda colocaram o mesmo mês como o melhor da série histórica, que começou em 2004. O acumulado entre janeiro e julho, quando 64.455 unidades foram comercializadas, também já havia entrado como os melhores primeiros seis meses de um ano da mesma sequência de dados.

O terceiro trimestre do ano, entretanto, indicou um arrefecimento do setor. De um lado, os lançamentos cresceram 19,2% na comparação com o mesmo período de 2020, mas as vendas líquidas, apesar de movimentarem aproximadamente R$ 7 bilhões, tiveram uma alta de apenas 1,7%. As explicações por trás dos números são a alta dos insumos, da inflação e dos juros do crédito imobiliário.

Ao olhar para 2022, o presidente do Secovi-SP, Basílio Jafet, não tem dúvida em cravar: “Vamos continuar indo bem, mas não tão bem como em 2021”, diz o executivo do setor imobiliário. Segundo Jafet, a demanda dos consumidores por imóveis residenciais vai continuar de forma significativa por um bom tempo.” O mesmo vale para a área de logística e até para os shoppings, segundo o presidente do Secovi, que participou do Summit Imobiliário, promovido pelo Estadão em parceria com o Secovi-SP e que reuniu especialistas e os principais líderes do setor imobiliário do País, no dia 25 de outubro, em São Paulo.

A consolidação dessa visão otimista para o ano que vem não está desconectada de um pouco de cautela. De acordo com Jafet é preciso que os juros se mantenham comportados para os imóveis permanecerem atrativos. “O ritmo de lançamento está forte. Por volta de 90 mil unidades no município de São Paulo em 12 meses. O mercado continua acreditando na aquisição por parte das famílias paulistas”, afirma Jafet.

Macroeconomia

Os dados macroeconômicos da Fundação Getúlio Vargas, segundo Ana Maria Castelo, coordenadora de estudos da construção da instituição acadêmica, reforçam os números apurados pelo Secovi. “Deve haver um aumento de 5% do PIB da construção deste ano. É verdade que é um crescimento sobre uma base baixa. Não deve recuperar as perdas (do ano passado) mas é um dado positivo que mostra a retomada”, afirma a pesquisadora, que também participou dos debates de mais uma edição do Summit Imobiliário Estadão. Para Ana, enquanto o preço das commodities está subindo em um ritmo pouco menor, a questão da alta dos combustíveis, por exemplo, ainda vai causar impacto no valor do frete.

Inflação e juros

Flávio Amary, ex-presidente do Secovi e agora secretário de Habitação do Estado de São Paulo, lembrou que a alta da inflação, que também ajuda a puxar os juros, têm um impacto efetivo em todo o setor.

“O nível de desconfiança sobre a economia colabora com a valorização do dólar e, por consequência, a desvalorização do real”, disse o secretário estadual de Habitação.

Desdobramentos provocados pelo aumento dos preços podem até resultar em abandonos de contratos, o que pode até prejudicar diretamente a entrega de obras, avalia o secretário da gestão Doria.

Moradia popular

Um novo programa de moradia popular municipal tem a possibilidade de “dar um cavalo de pau na política habitacional da cidade”, afirmou o secretário de Habitação da capital, Orlando Faria, que também participou dos debates sobre o mercado imobiliário. A iniciativa deve ser regulamentada até novembro.

Como a Prefeitura vai poder adquirir imóveis privados para fins de habitação de interesse social, a ideia, segundo Faria, é que o prazo de entrega dos imóveis gire entre 12 meses e 18 meses. A estimativa é que a administração municipal possa comprar milhares de unidades dentro do novo programa.

Uma carta de crédito de até R$ 120 mil, a depender da renda da pessoa, será dada pelo poder público como subsídio para a compra da casa própria. As famílias também vão ter acesso à conta garantidora, para poder efetuar a aquisição do imóvel. Segundo o secretário, já existem terrenos mapeados para serem usados para as moradias populares. “Normalmente, até por causa de atrasos e abandonos de contratos e de todo o processo de contratação os processos ficam muito longos. Com essa possibilidade de comprar no mercado, haverá uma mudança importante”, afirma Faria.

CDHU

Em termos estaduais, o presidente da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), Silvio Vasconcellos, também reforçou a preocupação social dos programas em andamento. O Vida Digna, por exemplo, é voltado especificamente para o litoral de São Paulo. “Vamos fazer 3 mil unidades habitacionais, com o objetivo de retirar os moradores de palafitas, que é uma das mais difíceis situações de sub-habitação. Certamente, em 2022, o litoral será um grande canteiro de obras”, afirmou o presidente da CDHU. O governo do Estado está investindo R$ 600 milhões nesta iniciativa. 

Para especialista, imóveis ainda são um bom investimento 

Apesar das seguidas altas da Selic, a taxa básica de juros, encampadas pelo Banco Central para tentar conter o aumento da inflação, os imóveis ainda são um bom investimento, diz o especialista em mercado imobiliário Eduardo Muszkat, sócio fundador da Kzas Krédito.

“Ainda vale a pena investir. A taxa de juros está mais alta do que 6 meses atrás, mas ainda segue abaixo do que era há três anos”, diz. “A questão é buscar boas oportunidades, em endereços que estão em processo de valorização, como Pinheiros, Vila Mariana e Vila Madalena, por exemplo. Bairros com potencial de crescimento são sempre um bom investimento”, afirmou.

Segundo Muszkat, o imóvel é um patrimônio a longo prazo e segue essencial na carteira de qualquer investidor. “Considerando que estamos em um ambiente inflacionário, previsível por algum tempo por conta da política fiscal do governo, os empreendimentos têm a característica de acompanhar a inflação. Uma boa moradia sempre vai ter valor.” 

Momento ainda é propício para a compra

  • Política de juros: Com a escalada da inflação o Banco Central tem feito seguidos aumentos da taxa básica de juros, a Selic. O índice influencia diretamente nos financiamentos imobiliários  
  • Juros: Quando a taxa de juros está baixa, muitos brasileiros aproveitam para financiar imóveis por conta do menor custo de crédito
  • Alta nas taxas: Quando a Selic sobe, o mercado pode ficar mais cauteloso quanto às vantagens de aplicações no setor imobiliário, já que os investimentos em renda fixa se tornam mais atrativos
  • Dependência externa: A elevada dependência do crédito no País é a causa da correlação entre a atividade imobiliária e a taxa de juros brasileiras
  • Bom momento: No entanto, o momento ainda é propício para quem busca comprar ou investir em imóveis, segundo Eduardo Muszkat, sócio fundador da Kzas Krédito. “Ainda vale a pena investir. A taxa de juros está mais alta do que seis meses atrás, mas ainda segue abaixo do que era há três anos”, afirma.

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Apesar dos seguidos aumentos nos juros, mercado está otimista

O ano deve fechar com pelo menos R$ 195 bilhões de crédito imobiliário concedido, um novo recorde histórico

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00

A alta dos juros para tentar frear a inflação veio para ficar pelo menos até o primeiro trimestre de 2022, afirmam os economistas. Com isso, as taxas do crédito imobiliário, sempre atreladas à poupança, também vão subir de patamar. Apesar do impacto negativo deste processo econômico sobre a venda de imóveis, não há sinais de pessimismo no horizonte, como ficou nítido durante os debates de mais uma edição do Summit Imobiliário Estadão.

“Influencia (a subida dos juros no setor), claro. Mas não estamos assustados. Vamos ter um crescimento mais flat, mas ele vai continuar a ocorrer”, afirma Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi-SP. De acordo com o estudioso do mercado imobiliário, mesmo com os juros do crédito mais altos, as taxas anuais não devem passar dos dois dígitos.

“Torço para que isso não volte”, diz Petrucci, lembrando que o brasileiro, no passado, chegou a ficar acostumado com taxas efetivas de juros imobiliários na casa dos 12%.

A gangorra entre juros e concessão de crédito, totalmente desequilibrada a favor do consumidor nos últimos meses, pode até migrar um pouco mais para o meio, mas nada que faça o sinal ser invertido totalmente. A não ser que as condições econômicas se deteriorem ainda mais. “Vamos continuar na mesma toada, mas não tão forte”, afirma Cristiane Portella, presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). Os números do setor para 2021, até agora, são vigorosos. Pelas estimativas da instituição, o ano deve fechar com R$ 195 bilhões de crédito imobiliário concedido, o que vai configurar um novo recorde histórico.

Em setembro, os dados da Abecip mostraram que os financiamentos imobiliários com recursos das cadernetas do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) atingiram R$ 17,85 bilhões. O montante foi 15% inferior ao recorde mensal de R$ 21 bilhões observado em agosto, mas registrou alta de 38,2% na comparação com setembro de 2020. “O crescimento tem sido muito significativo. Para o ano que vem, apesar da desaceleração, devemos registrar um crescimento na casa dos 10%”, estima Cristiane. Olhar para a taxa de juros de longo prazo, entre 5 e 10 anos, que está na casa dos 10%, também é importante segundo a representante da Abecip, quando se fala de financiamentos imobiliários, que podem durar até 35 anos. “É natural que novas correções sejam feitas (nas taxas de juros imobiliárias)”, explica.

Macroeconomia

Parte do cenário previsto para o ano que vem vai ser creditado às incertezas macroeconômicas, explica Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter. “Tem muita coisa para acontecer, mas em um cenário base podemos falar em uma Selic para 2022 entre 9% e 10%.”

A inadimplência baixa, algo que é histórico no Brasil, e as novas regras de segurança jurídica que permitem uma retomada rápida do imóvel quando não se consegue mais pagar o financiamento, também são forças motrizes interessantes para o setor. Neste contexto, o otimismo também está presente na análise de José Ramos Rocha, diretor executivo do Bradesco. “As taxas de crédito não devem atingir os dois dígitos em 2022 e isso é importante em termos de efeito psicológico para o investidor. Não vamos manter as taxas de crescimento deste ano, mas os números serão muito positivos”, afirma o executivo. 

Retomada

  • 96,3% é a alta do crédito imobiliário até setembro deste ano
  • R$ 154,69 bi foi o valor financiado até setembro ante a igual período do ano passado
  • R$ 199,86 bi foi o montante financiado nos 12 meses compreendidos entre outubro de 2020 e setembro de 2021
  • 73,8 mil imóveis foram financiados em setembro de 2021, nas modalidades de aquisição e construção
  • 75,6% foi a alta no mês de setembro de imóveis financiados ante o mesmo mês do ano passado
  • 810,97 mil foi o número de unidades financiadas com recursos da poupança, no período de 12 meses, entre outubro de 2020 e setembro de 2021, alta de 119,6% ante o período anterior 

Para economista, investimentos de fundos devem se manter 

O investimento no mercado imobiliário principalmente por meio de fundos de investimentos é uma tendência que veio para ficar, analisa Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter.

“Tivemos um crescimento muito grande, com muita captação dos fundos imobiliários nos últimos dois ou três anos.” Mesmo com o aumento da inflação, que tira a atratividade desse tipo de ativo – que perderam em média 10% neste ano – o crescimento do mercado não vai deixar de ocorrer, analisa.

“Tudo indica que a atuação do Banco Central deve trazer a inflação para a meta a partir de 2023. No longo prazo, um nível de juros aceitável para o nosso histórico deverá estar na casa dos 6,5%. O que permite que o investimento no mercado imobiliário continue crescendo”, diz Rafaela. Mas isso, a partir dos fundos e não por meio de imóveis em si. “O investidor pegou gosto pelos fundos, pela bolsa. O investidor está amadurecendo e aprendendo a diversificar o seu portfólio.”  

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Segmento se transforma com inovações

Ainda há dificuldades com as novas tecnologias, mas novas ideias aparecem e tornam o segmento mais competitivo

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00

Existem muitas etapas entre começar a pensar na casa própria e colocar a chave na fechadura. Até por isso, como ocorre em todo o mundo, a cadeia do setor imobiliário é considerada como a que tem a maior classe de ativos do planeta. Mas, do outro lado da moeda, é uma das que menos apostou até agora em inovação tecnológica. Métodos tradicionais, de décadas, ainda fazem parte do horizonte de quem parte para a compra de um novo imóvel.

O que não significa que nos últimos três ou quatro anos ideias inovadoras não estejam sendo testadas. A Urbem, por exemplo, está apostando no mercado das madeiras “engenheiradas”, aquelas que são processadas industrialmente para otimizar o seu desempenho na construção civil e podem substituir os tradicionais aço e concreto na estrutura das obras. A CEO da companhia, Ana Bastos, apresentou números durante o Summit Imobiliário Estadão, que indicam o potencial do mercado para o novo produto.

“Se antes da pandemia nossa equipe havia avaliado projeto em um total de 50 mil m², depois, avaliamos 1 milhão de m²”, afirma a executiva. 

O grupo está construindo uma fábrica que deve começar a operar no segundo semestre de 2022. Até por ser um produto alicerçado no tema da sustentabilidade, o método, que nasceu na Áustria nos anos 1990, hoje está presente em vários países da Europa, na Ásia e na Austrália. O maior prédio do mundo com o material, com 25 pavimentos, está sendo construído em Milwaukee, nos Estados Unidos, país que já tem mais de 400 construções de madeira “engenheirada”.

Melhor desempenho

Se inovação é resolver um problema de alguém, e no caso do Urbem, a tecnologia escolhida também melhora o fluxo nos canteiros de obra, existem outros grupos que estão focados em outros pontos da cadeia imobiliária, como, por exemplo, a sempre complexa e burocrática parte da compra e venda de um imóvel.

“O ciclo de uma compra é muito grande. No começo pensava que o principal, por exemplo, era ajudar a digitalizar os corretores de imóveis. Mas hoje, percebemos que temos que na verdade até resgatar a dignidade deste profissional. A maioria faz um trabalho excelente, mas tem muitos que pagam por poucos”, afirma Leonardo Azevedo, presidente da Apê11, startup de três anos recém comprada pelo Santander. “Nosso objetivo é criar um grande ecossistema imobiliário que tire a transação imobiliária do lugar de uma commodity”, diz o executivo. Um dos problemas do mundo real, por exemplo, que precisa ser ainda resolvido no setor, segundo Azevedo, é o mercado secundário de imóveis da linha Minha Casa Minha Vida.

Mudanças

A inovação não parte apenas de startups criadas há poucos anos, interessadas em transformar, sempre atrelada à tecnologia, a realidade dos construtores e clientes. Dentro da Gafisa, como explica Fabio Romano, CEO da Gafisa Viva Bem, o braço de inovação da tradicional construtora de 67 anos, também existe uma cultura de fazer mudanças disruptivas de dentro para fora da companhia.

“O objetivo é consolidarmos um marketplace de produtos da moradia”, afirma o executivo. Isso envolve áreas que vão além da compra e venda. E inclui decoração, reformas, um clube de compras e o aluguel. “É uma nova visão, queremos ser uma plataforma tecnológica de referência”, afirma Romano. Tornar mais agradável a jornada do consumidor é a linha mestra do trabalho, segundo Guilherme Paiva, diretor da Vertical Imobiliária. “Temos de mudar a forma de as pessoas pensarem. A tecnologia é meio e não o fim”, afirma. 

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Após susto, setor corporativo reavalia dados e vê tombo menor na pandemia

Redesenho do setor, em relação aos primeiros impactos da pandemia, parece que vai ser menor do que o esperado

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00

Com o passar dos meses, algumas tendências anunciadas em 2020 já precisam ser relativizadas ao final de 2021. Algumas estão relacionadas ao mundo corporativo, principalmente no caso dos setores de evento e, principalmente, na questão da necessidade de as empresas precisarem ou não de mais espaço para o seu dia a dia.

“A necessidade do olho no olho é algo que não vai mudar”, afirma Fernando Didziakas, sócio-diretor da Buildings, empresa especializada no comportamento do setor corporativo. Pela análise do executivo, pode-se dizer que “as mudanças práticas, no setor, por exemplo, de lajes corporativas, ainda são pequenas”.

 

O redesenho do setor, em relação aos primeiros impactos da pandemia, parece que vai ser menor do que o esperado. Pelos números apresentados durante mais uma edição do Summit Imobiliário Estadão, a taxa de devolução de espaços comerciais, hoje, em um universo de 2,8 mil edifícios corporativos está na casa dos 5%. Nos chamados empreendimentos classe A, em áreas como a da Avenida Faria Lima, por exemplo, dos 4 milhões de m² de 250 imóveis, 150 mil m² foram devolvidos.

Meio do caminho

A discussão entre o trabalho totalmente remoto e o 100% presencial mostra claramente que a tendência é que se fique em um meio do caminho, diz o diretor da Buildings. “Esse é um assunto vencido. Mas a escolha pelo 100% ao vivo está sendo maior do que o 100% online.” No terceiro trimestre de 2021, por exemplo, os dados reforçam a tese de Didziakas. “A taxa de devolução voltou a ficar menor do que a de novas locações.”

Uma dúvida, porém, persiste. Segundo o executivo, ainda é preciso saber se o fato de as empresas voltarem para seus prédios corporativos, mesmo com 30% menos de pessoal no presencial, por exemplo, vai significar mais ou menos espaço físico.

As características do povo latino, de ter uma interação social mais de perto mesmo no mundo dos negócios, é outro caminho que faz Maria Carolina Pinheiro, vice-presidente de Novos Negócios para a América Latina da Wyndham Hotels & Resorts, ter uma visão otimista do futuro.

“Claro que o momento foi muito duro e exaustivo, mas começamos a ver uma luz no fim do túnel. A tendência é a de que voltaremos a viajar para fazer negócios. Nem sempre a reunião online, entre os latinos, é a melhor opção”, explica Maria Carolina. Segundo ela, mesmo durante a pandemia, o grupo conseguiu assinar 29 novos contratos na região.

Turismo de negócios

Apesar de o turismo de negócios ainda estar travado, a visão positiva da executiva do grupo Wyndham tem a ver também com a retomada, bastante rápida, dos hotéis de lazer. “O mercado está aquecido. Estão todos contentes com os resultados. E, no Brasil, a taxa de câmbio também vai fazer com que os brasileiros visitem mais o próprio Brasil.”

Tendência que faz com que o mercado das multipropriedades, por exemplo, onde a RCI atua com força, também já esteja olhando para frente. “O ano está muito bom. Estamos com 45% das vendas em relação ao período 2019/2020”, afirma Fabiana Leite, Líder de Desenvolvimento de Negócios na América do Sul da RCI. O setor das multipropriedades é o procurado por quem busca uma segunda residência para as férias, e que não precisa ser o mesmo local. A RCI, por exemplo, conta com uma rede de 4,2 mil hotéis e resorts pelo mundo.  

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