Trabalho social também pode ser remunerado

Além do serviço voluntário, organizações não governamentais oferecem vagas assalariadas para profissões de várias áreas

MÁRCIA RODRIGUES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h10

Levantamento feito pelo coordenador do curso de projetos sociais do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), Hélio Silva, aponta que as organizações não governamentais (ONGs) empregam 1,7 milhão de trabalhadores, além do quadro de voluntários. A maioria das contratações está na área da saúde e da educação. Os números animam quem deseja abandonar o trabalho na iniciativa privada para seguir carreira na "causa social". "Não há salário que substitua o sorriso de uma criança quando você chega em uma comunidade para realizar trabalho", conta Sônia Maria Bonici, de 55 anos, diretora de relações institucionais do Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren ).

Sônia abandonou a carreira de marketing na iniciativa privada para atuar no combate à desnutrição infantil. Na ONG ela atua na captação de recursos e na divulgação dos projetos feitos nas comunidades. Sua paixão pela "causa social" começou quando ainda trabalhava no departamento de marketing de uma organização. "Trabalhei e fui feliz em muitas empresas, mas nenhuma aquecia meu coração como o terceiro setor", enfatiza.

Segundo a diretora, seu lado social foi despertando aos poucos. "Comecei como voluntária em projetos com crianças e adolescentes. Com o tempo consegui conciliar o trabalho com cidadania. E isso me torna uma pessoa melhor e muito mais realizada hoje em dia", comenta.

Sônia fala com orgulho dos trabalhos que realiza, apesar de reconhecer que o salário encolheu. "Quando chega o meio do mês e vejo que já estou sem dinheiro, lembro que foi uma opção minha. Mas daí logo me vem à cabeça a imagem das crianças que já ajudei e aí percebo que a troca valeu a pena", diz.

A mesma sensação de que a escolha compensa, apesar de mexer no bolso tem Simone Moura, de 35 anos, coordenadora de voluntários da Associação Maria Helen Drexel. Ela saiu do mundo dos negócios - trabalhava no departamento financeiro da empresa da família - para viver a realidade de "gente pequena", como gosta de falar. A ONG acolhe crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social e promove a reintegração familiar e comunitária. "A maior recompensa que tive com minha escolha foi perceber que ainda existem pessoas de bom coração, o que vem se tornando muito difícil identificar ultimamente", comenta Simone.

Apesar de satisfeitas com a nova área de atuação, tanto Sônia como Simone reconhecem que a remuneração mensal caiu de 30% a 50% ao saírem da iniciativa privada. "É estranho observar que fazemos o mesmo trabalho e não contamos com recurso suficiente para termos a mesma remuneração que a iniciativa privada", desabafa Sônia.

Ação social. Segundo o professor Silva, com o crescimento da preocupação da comunidade internacional com a sustentabilidade, também vem aumentando o número de ONGs que atuam na área ambiental. "Além disso, o trabalho na área assistencial também continua em alta", comenta o professor.

Para Silva, é importante que essas organizações busquem cada vez mais profissionais qualificados e invistam na estruturação para garantir sua sobrevivência. "Com a melhora na economia brasileira, as ONGs nacionais perderam muitos recursos internacionais para os países da África. Se não houver investimento em qualificação profissional e, principalmente, de gestão, certamente a situação pode ficar difícil", diz.

Sabendo disso, segundo ele, muitas entidades começaram a investir na profissionalização de seus empregados. (veja matéria nesta página).

Mercado. Quem faz o caminho inverso, ou seja, trabalha primeiro em ONG antes de seguir para a iniciativa privada, pode sofrer um certo preconceito por parte das companhias, segundo o diretor geral da Ricardo Xavier Recursos Humanos, João Xavier.

De acordo com o especialista, por causa da atuação social, as empresas podem interpretar que esses profissionais não têm o lucro e o resultado financeiro como foco, o que pode subentender que não estão habilitados para o mercado de trabalho. "Claro que esta avaliação não é uma regra e algumas companhias podem ver esses profissionais de outra forma, mas é um preconceito, na minha opinião, equivocado que esses trabalhadores podem enfrentar ", comenta Xavier.

Em compensação algumas companhias valorizam, segundo ele, o profissional vindo das ONGs pelas seguintes razões: saber administrar recursos escassos, uma das necessidades do mundo corporativo; conseguir gerenciar e administrar prioridades, já que essas instituições não contam com muitos investimentos para desenvolver seus projetos; ter facilidade para captar recursos e conquistar novos apoiadores; trabalhar em equipe. "São quatro competências consideradas importantes para qualquer corporação que deseja crescer e conter gastos", sinaliza.

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