Tragédia ou meras estatísticas?
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Tragédia ou meras estatísticas?

O Brasil atingiu a marca de 400 mil mortos pela covid-19 nesta quinta-feira, 29, com altos índices de óbitos diários e tudo vai sendo aceito como se fosse a nova normalidade

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2021 | 19h30

Uma das consequências desta pandemia é a banalização da morte. As pessoas morrem sozinhas, cercadas de tubos e de aparelhos gelados, sem velório, sem acompanhamento, sem missa de sétimo dia, luto truncado, rumo ao esquecimento precoce. E tudo vai sendo aceito como se fosse a nova normalidade.

O Brasil chegou a 400 mil mortos pela covid-19, número que começa a ser visto apenas como mais uma estatística – exatamente como Stalin imaginara a reação da sociedade diante da ocorrência de 1 milhão de mortos.

As coisas ficaram assim no Brasil porque o governo Bolsonaro tratou a pandemia com o negacionismo já conhecido. O drama nacional que deveria ter sido enfrentado com capacidade de liderança, foco e determinação foi largado ao vento. A economia foi arrastada ao quase colapso, não porque governadores e prefeitos tivessem exigido o fechamento do comércio, o isolamento social e o uso de máscaras, mas porque, com suas omissões e desastrada condução, o governo federal estimulou a contaminação e desprezou as vacinas.

Foi tudo ao contrário do que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, fez e conseguiu em apenas 100 dias de governo. Nos Estados Unidos, a pandemia matou 574 mil. Mas a meta de vacinar 100 milhões em 100 dias foi simplesmente dobrada. Essa é a principal razão pela qual a atividade nos Estados Unidos pode agora se expandir, criar empregos e voltar a liderar a economia mundial. Nesta quinta-feira, o Escritório de Análise Econômica do Departamento do Comércio dos Estados Unidos revelou que, no primeiro trimestre deste ano, a economia americana cresceu nada menos que 6,4% em termos anuais.

É também o sucesso obtido no enfrentamento do coronavírus a credencial que Biden agora usará para arrancar do Congresso a aprovação do seu superprograma de investimentos de US$ 2,3 trilhões, destinado a expandir a infraestrutura e a produzir energia limpa.

Biden transformou as incertezas do início de seu mandato em certezas positivas. Bolsonaro em quase dois anos e meio aprofundou as incertezas. A vacinação segue a ritmo de tartaruga, o País está ameaçado por novas ondas e novas cepas e sabe-se lá se não acontece por aqui algo parecido com o que se passa na Índia. E, se for assim, a estatística de meio milhão de mortos virá em semanas. (Em pouco mais de um mês, saltou de 300 mil para 400 mil.)

Depois da aprovação desse Orçamento mutilado por interesses paroquiais e da insatisfatória recuperação da arrecadação, as contas públicas continuam sangrando. A política econômica, antes comprometida com as reformas, com a desburocratização e a modernização administrativa, tornou-se refém do Centrão, um aglomerado de políticos movido a clientelismo, patrimonialismo e outras formas de toma lá dá cá.

A esperança está na recuperação no resto do mundo. Se Estados Unidos, China e União Europeia se recuperarem rapidamente como os números indicam, pode-se esperar por certo efeito demonstração também por aqui. Mas, para isso, muita coisa teria de mudar e o presidente não dá sinais de que isso pode acontecer.

CONFIRA

» Esticada do IGP-M

Em abril, o  Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), índice usado para corrigir aluguéis, avançou 32,02% em 12 meses, variação que deverá continuar subindo nos próximos meses.

Mas há sinais de que, a partir de agora, o índice mensal deverá ser mais baixo do que o 1,51% de abril (sobre março), porque certos preços no mercado atacadista (que entra com 60% na composição do IGP-M) tendem a subir menos, graças à queda das cotações do dólar em reais, que deverá conter os preços dos combustíveis e dos alimentos. 

CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA*

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