Trajetória de alta do dólar preocupa e impede otimismo com inflação

Um dos principais motivos de apreensão dos analistas com relação à inflação de 2013 é o preço dos defasados dos combustíveis

Cristina Canas e Silvana Rocha, da Agência Estado ,

23 de novembro de 2012 | 18h48

SÃO PAULO - Uma eventual estabilização do dólar nos atuais níveis, ao redor de R$ 2,10, diminui a possibilidade de revisões para baixo nas estimativas para os índices de preços. Além disso, a continuidade da alta do dólar é um perigo que fica mais possível a cada dia que passa sem que os Estados Unidos encontrem um acordo para evitar o abismo fiscal e diante do fato de a presidente Dilma Rousseff ter falado, nesta semana, em buscar uma taxa de câmbio que não seja a atual, de dólar desvalorizado. Ainda assim, a avaliação geral é de que, se parar nos níveis a que chegou agora, o câmbio será facilmente absorvido, sem pressões maiores na inflação.

"Há coisas mais preocupantes que o dólar para a trajetória de inflação, mas a continuidade da discussão sobre um patamar mais elevado para a moeda norte-americana por parte do governo e a possibilidade de as cotações continuarem em alta são um problema", diz a economista da Rosenberg e Associados, Priscila Godoy.

Um dos principais motivos de apreensão dos analistas com relação à inflação de 2013 é o preço dos combustíveis. Os valores cobrados atualmente no mercado interno estão defasados - diesel e gasolina -, afetam negativamente os resultados da Petrobrás e isso já está sendo fator de pressão sobre o governo para que um reajuste seja autorizado.

De acordo com os economistas, um dólar mais alto e em trajetória ascendente pode antecipar e majorar esse aumento. Até porque, além dos combustíveis terem preços definidos internacionalmente, as importações feitas pela Petrobrás aumentaram, ao mesmo tempo em que a produção interna caiu. E a demanda deve subir, já que a expectativa é de expansão maior da economia no ano que vem.

"O maior impacto do dólar alto na inflação deve ocorrer na medida em que isso forçará um reajuste maior e mais rápido da gasolina e do diesel", afirma Flávio Combat, economista da Concórdia Corretora. Ainda assim, para ele, a pressão maior pela alta mais urgente dos preços da gasolina e do diesel ocorreria se o dólar pulasse para R$ 2,15. "Acho que isso anteciparia os reajustes e preocuparia", completa. Priscila, da Rosenberg, acrescenta ainda que a elevação dos combustíveis ganha cada vez mais importância, à medida em que o cenário para o corte das tarifas de energia segue "emperrado".

Já Combat ressalta o impasse da questão fiscal dos Estados Unidos. Para ele, a cada dia que passa sem que haja uma solução para evitar o corte de gastos e o aumento dos impostos previstos para janeiro nos Estados Unidos, há um aumento de aversão ao risco que deve se traduzir em pressão inflacionária no Brasil. "Em momentos de aversão ao risco, a tendência é os investidores saírem de ativos de risco e procurar outras alternativas, entre elas as commodities e o petróleo", diz. O dólar também é um ativo habitualmente procurado quando os investidores fogem do risco, o que tende a elevar o valor da divisa em relação às demais moedas.

Atividade

A relativa tranquilidade com que os economistas vêm o dólar subir a R$ 2,10 deve-se às dúvidas sobre a capacidade de que esse aumento seja repassado ao consumidor, diante do atual comportamento da economia. "Com a atividade ainda fraca, 5% de aumento na cotação do dólar não muda muito na inflação", acredita o economista da Quest Investimentos, Fábio Ramos. Ainda assim, ele avalia que "o otimismo para que revisões para baixo no IPCA sejam feitas ficou para trás".

Mesmo com crescimento maior da economia, como é esperado para 2013, alguns economistas destacam a capacidade ociosa da indústria e avaliam que a produção doméstica pode concorrer com os produtos importados mais caros em razão do dólar, atendendo a demanda maior por parte dos consumidores. "Até porque, devido à crise, o mercado externo está reduzido e a possibilidade de um aumento de produção ser exportado é pequena", diz Combat.

Impacto nos índices

Nos cálculos de Ramos, a influência da alta do dólar na inflação será perceptível, de cerca de 0,3 ponto porcentual na taxa anual, depois que a cotação alcançar R$ 2,20. Além disso, ressalta, o repasse do câmbio aos preços não é linear e ocorre somente após se consolidar uma percepção de que a alta do dólar é permanente.

O economista do Besi Brasil, Flavio Serrano, é o mais pessimista a respeito do repasse. Para ele, se a moeda norte-americana se firmar em torno de R$ 2,10, haverá muito ruído nas perspectivas de inflação para 2013. Suas estimativas são de que a alta recente do dólar teria um efeito potencial de 0,15 pp sobre o IPCA no curto prazo e de até 0,40 pp no médio e longo prazos (12 a 18 meses).

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