Transferência de soberania é a saída

Uma reunião de cúpula em Bruxelas tenta encontrar uma solução para a crise da dívida grega, que ameaça levar a Europa para o abismo. Nicolas Sarkozy jantou ontem com a chanceler alemã, Angela Merkel. Estarão ambos à altura desse desafio? As causas do desastre são conhecidas.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2011 | 00h00

A Grécia, endividada até a morte, prestes a cessar seus pagamentos, foi salva no ano passado graças a uma ajuda monumental da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional. Em troca, Atenas teve de adotar um plano de austeridade de um rigor desumano. No entanto, depois de um ano, a Grécia, longe de se recuperar, continua naufragando. É preciso, assim, salvá-la uma segunda vez, uma vez que a sua queda provocará outras e, no final, levará a uma explosão da zona do euro.

Os autores desse drama não estão de acordo quanto aos meios para salvar o país. E a Alemanha, o país mais forte da zona do euro, da qual é exigido o esforço maior, está farta de pagar as dívidas da Grécia, um país que se especializou em fazer a sesta, como dizem os alemães.

Segundo Merkel, fornecer somas colossais para a Grécia não servirá para nada, pois o país, paralisado por um plano de rigor atroz, não conseguirá retomar a produção e, portanto, jamais devolverá esse dinheiro emprestado.

E cada um oferece uma solução. Elas não apenas são técnicas, mas todas cometem o mesmo pecado original: não atacam as causas do naufrágio, apenas seus efeitos. Por isso, devemos esperar que Sarkozy e Merkel se mostrem à altura do gênio que, humildemente, um considera o outro. São os únicos dirigentes com poder para empurrar o veículo atolado que chamamos Europa. Mas eles só terão sucesso nesse "trabalho de Hércules" se, além dos dispositivos técnicos bastante duros, forem atacadas as raízes do desastre europeu.

A Europa e o euro estão próximos do abismo. A sobrevivência desse continente como grande polo econômico está ameaçada. Se quisermos salvar o euro e, portanto a Europa, é preciso remanejar de cima abaixo as estruturas da zona do euro, esquecer as tolices de Maastricht e adotar uma nova Carta para o euro e a UE.

É preciso dotar o edifício europeu de uma autoridade política e econômica superior e, nesse caso, cada país terá de abandonar uma parte de suas prerrogativas (apenas uma parte) e aceitar que ocorram "transferências de soberania". Mas dois mil anos de uma história violenta não deram aos diferentes Estados europeus vontade de delegarem um pedaço da sua soberania a um poder supranacional. Esse é o desafio. Não existe outra saída. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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