Transformação da China desafia empresários

Num país que ainda é chamado de ‘chão de fábrica do mundo’, operários agora querem salários mais elevados e uma vida melhor

Li Yuan, The New York Times

29 de janeiro de 2019 | 04h00

Shao Chunyou é o exemplo do sonho chinês. Ao longo de três décadas, ele passou de um trabalhador em linha de montagem para proprietário de uma empresa de eletrônicos, após a passagem da China de um fim de mundo econômico para a segunda maior economia do mundo. Ele agora tem duas fábricas e emprega mais de 2 mil trabalhadores.

E, enquanto a China muda, Shao precisará se reinventar novamente. O crescimento da economia já não está tão vigoroso. A competição se intensificou. E num país ainda chamado de “chão de fábrica do mundo”, parece que ninguém quer mais trabalhar em uma fábrica. “Havia mais trabalhadores e menos fábricas antes”, disse Shao, referindo-se aos velhos tempos. “Agora, temos de implorar por trabalhadores.”

A China subiu na cadeia de valor, e sua população subiu junto. Agora quer salários mais elevados e uma vida melhor. O país deixou de ser a fábrica mais barata do mundo. Os chineses devem agora adotar manufatura de alto valor, automação e inovação, se quiserem continuar crescendo em ritmo constante. O sucesso depende da capacidade de pessoas como Shao se distanciarem dos métodos tradicionais de negócios.

A mudança de Shao não será fácil nem barata. Ele está substituindo pessoas por robôs. Está fabricando aparelhos mais sofisticados. E a mais radical das transformações: o empresário, que sempre se orgulhou de fazer tudo sozinho, está pela primeira vez aceitando ajuda direta do governo. “Fazer negócios é como lançar a flecha de um arco”, disse Yu Youfu, a mulher de Shao. “Uma vez que ela está em movimento, não há como voltar atrás.”

Todo mundo chama Shao de “chefe”, até mesmo sua mulher. É um homem corpulento com um tufo de cabelo que convida a uma comparação com Donald Trump, o presidente dos EUA. Ele é dono de uma empresa de eletrônicos chamada Quankang. Yu, uma mulher esbelta e forte, supervisiona as operações de fábrica, finanças e administração. Seu filho de 27 anos, Shao Qiang, comanda o novo departamento de pesquisa e desenvolvimento da Quankang. A empresa tradicionalmente fabricava peças para smartphones e outros equipamentos, e agora está voltando suas metas mais para o alto.

Durante anos, o casal dormiu em seu escritório ao lado da empresa, e Yu ainda dorme lá de tempos em tempos, mesmo que seu espaçoso apartamento esteja a 15 minutos de carro. “Durmo melhor com o barulho das máquinas”, disse ela. “Se elas estão barulhentas, isso significa que estão funcionando.”

Shao nasceu em Jiujiang, uma cidade de tamanho médio no interior da China. Aos 16 anos, tornou-se aprendiz de carpinteiro, ganhando o suficiente para se alimentar. Em 1989, no mesmo ano em que as autoridades dispararam contra manifestantes na Praça da Paz Celestial, Shao, então com 20 anos, foi para o sul. Deng Xiaoping, na época o líder supremo da China, havia aberto zonas econômicas especiais – basicamente áreas onde os empresários poderiam começar negócios e cortejar investidores estrangeiros – em cidades como Shenzhen e Zhuhai.

Em 2004, Shao iniciou uma pequena empresa de moldagem de metal enquanto trabalhava em seu emprego. Yu lidava com os clientes e administrava os livros. Eles chamaram a empresa de Quankang, que pode significar “tudo saudável” ou “tudo bem”. Mandaram o filho de volta para casa para ser criado pelos avós, como fizeram muitos outros trabalhadores migrantes na China. Dois anos depois, eles se mudaram de Shenzhen para a vizinha Dongguan, uma cidade de edifícios fabris baratos.

O governo e os bancos estatais normalmente não ajudavam os donos de pequenos negócios como Shao e Yu, e no começo eles enfrentaram dificuldades. Uma vez eles precisaram recusar um grande cliente, pois não tinham dinheiro para comprar os materiais. Mas, quando a China começou a amadurecer, os negócios se tornaram mais difíceis. Concorrentes surgiram. O preço tornou-se brutal. Shao e Yu descobriram que tinham de evoluir ou morrer.

Em 2015, o casal começou a trabalhar com fabricantes chineses como a Xiaomi e a Huawei para fabricar peças básicas de metal para fones de ouvido, já que as vendas de smartphones decolaram. Eles pegaram milhões de dólares em empréstimos bancários e investiram em 120 máquinas. A aposta valeu a pena até que a competição se tornou muito acirrada e eles começaram a pensar em produtos mais sofisticados, como eletrodomésticos. “Na China, assim que você tiver um produto que venda bem, muitas outras empresas correrão para fazer a mesma coisa”, disse Shao.

Salto

Em 2017, o casal criou um plano de sobrevivência ambicioso: mudar, escalar a cadeia de valor e automatizar. A Quankang está trabalhando com a Xiaomi para projetar e fabricar eletrodomésticos inteligentes, como aquecedores e ventiladores elétricos. Shao e Yu planejam construir três linhas de montagem totalmente automatizadas. 

E, pela primeira vez, Quankang está aceitando o apoio direto do governo. A campanha de modernização de Shao acontecerá em mais de 30 acres de distância de Dongguan, na província vizinha de Hunan. O governo local está dando a terra quase de graça em Quankang – está mais interessado em receitas fiscais e criação de empregos do que em receita de vendas de terras, disse Shao. Até agora, ele gastou quase US$ 12 milhões na fábrica de Hunan.

O boom da China começou quando o Partido Comunista liberou os empresários do país e os deixou trabalharem em paz. Esse próximo estágio de crescimento pode não ser tão fácil. Para ajudá-lo, o governo central está gastando grandes quantias para fazer o upgrade na produção. Isso se mostra atraente para empreendedores como Shao e Yu, que estão desesperados para encontrar um novo nicho para sobreviver e prosperar. “Os negócios para nossas fábricas não estavam tão bons como antes”, disse Yu. “Mas, como estamos fazendo isso, continuaremos avançando porque, atrás de nós, há um precipício. Cairemos, se recuarmos.” /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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