Transgênicos. Comida! Comida!

É provável que, num futuro distante, 17 de maio de 2016 seja considerada uma data histórica. Nesse dia, a Academia de Ciências dos EUA informou oficialmente que os alimentos transgênicos não fazem mal à saúde, conclusão baseada em meticulosa investigação que somou 900 estudos científicos, dos quais participaram 50 especialistas. O trabalho se concentrou principalmente em milho, soja e algodão, que se tornaram produtos essenciais para atender às necessidades de sobrevivência da humanidade, em preocupante expansão demográfica, já que hoje 800 milhões de pessoas passam fome no mundo.

Luiz Gonzaga Bertelli*, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2016 | 05h00

Nesse sentido, os números da Food Agriculture Organization (FAO), órgão da ONU que zela pela segurança alimentar, confirmam as apreensões. Conforme projeções, em 2050 seremos cerca de 9 bilhões de pessoas, com a possibilidade de chegarmos a 10 bilhões até o fim do século. Hoje, em média, 83 milhões de seres humanos chegam ao planeta por ano. A megamultidão exige que a produção de alimentos seja duplicada ou triplicada nos próximos 40 anos. Hoje, a mesma FAO estima a existência de 800 milhões de famintos em todo o mundo.

Atender à demanda alimentar prevista é tarefa hercúlea, mas não impossível. A principal barreira está na limitação da exploração de solo, esclarece o pesquisador Harald von Witzke, da Universidade Humboldt, de Berlim. Portanto, a chave da solução, aliás, bem conhecida, está na produtividade, isto é, mais comida por metro quadrado cultivado. Apenas 40% dos 140 milhões km²da superfície da Terra – os outros 370 milhões km²estão cobertos pelo mar – são aproveitados principalmente para cereais (16 milhões de km²) e pecuária (30 milhões de km²). Acresce que são mínimas as possibilidades de avanço, seja pela extrema infertilidade de muitas áreas, seja pela necessidade de preservar florestas e mangues. Além disso, lembre-se de que a agricultura é responsável por 30% da emissão dos gases que provocam o efeito estufa.

A história da agricultura mostra, desde as primeiras experiências genéticas com sementes feitas a partir de 1865 pelo austríaco Gregor Mendel, que a produtividade sempre foi alavancada pela ciência. A propósito, é agradável lembrar que o Brasil responde por 60% da produção de suco de laranja do planeta, façanha que devemos ao agrônomo Sylvio Moreira, autor de pacientes estudos e enxertos sucessivos durante os anos 1950. A realidade é que o avanço da ciência traduzido em alimentos transgênicos dá novas esperanças à procura do aumento de produtividade para suprir a carência de comida. Acresce que a tecnologia de modificar sementes propicia vantagens adicionais à produção pura e simples. Basta lembrar que as culturas, além de ganhar resistência a pragas e fenômenos naturais adversos, como carência de água e mudanças climáticas, podem ser enriquecidas com elementos nutricionais indispensáveis ao organismo humano, como ferro, zinco e vitamina A, combatendo simultaneamente o perigo silencioso da subnutrição.

Finalmente, o novo modo de cultivar reduz custos, aumentando o acesso de populações carentes à mesa. Convém lembrar, a título de enriquecer o debate sobre o tema, que entidades ambientais respeitáveis, como o Greenpeace, se opõem aos transgênicos, utilizando argumentos ecológicos e econômicos. No primeiro caso, suspeitam que poderá haver efeitos danosos sobre o meio ambiente; no segundo, desconfiam da possibilidade de monopólio da produção de comida em escala pelas empresas detentoras de patentes relativas às sementes modificadas.

O parecer da Academia de Ciências dos EUA paira acima dessa discussão, trazendo um aceno de alívio. Ao isentar transgênicos, aponta um caminho concreto para resolver a questão crucial da fome futura. Os eventuais problemas decorrentes do novo manejo agrícola, embora relevantes e merecedores de atenção, oferecem a chance de serem remediados pela mesma ciência, caso venham a ser confirmados.

*É presidente do Conselho de Administração do CIEE-SP, presidente do Conselho Diretor do CIEE Nacional, diretor e conselheiro da FIESP-CIESP

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