Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Transparência contra a especulação

Não há dados transparentes sobre as compras futuras de insumos pelo mercado internacional

Ricardo Santin*, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 04h00

Informação é ouro. Em tempos de fake news, porém, ouro é a informação idônea e de fontes confiáveis. Informação correta elimina a escuridão e projeta as verdades escondidas.

Quer ver uma delas? Um ano de ouro gera menos para o Brasil do que um ano de carne de frango. Em 2019, exportamos US$ 3,6 bilhões em ouro. Dobre esse valor e você terá algo próximo ao que embarcamos de carne de frango: US$ 7 bilhões. Nos últimos 20 anos, as vendas para o mercado internacional geraram para o Brasil US$ 116 bilhões. Some a este quadro as vendas de carne suína, setor com sistema produtivo equivalente. O total passa para US$ 140 bilhões.

Concentrada especialmente no interior, essa produção reúne em torno de 220 frigoríficos e gera 4,1 milhões de empregos diretos e indiretos. Envolve 100 mil famílias de pequenos e médios produtores. São números de setores que alicerçam a economia de centenas de municípios distribuídos pelo País.

São alicerces sólidos, mas não indestrutíveis. O vento que sopra a favor do crescimento econômico, da agregação de valor e da geração de empregos também pode ecoar o efeito destrutivo da desinformação vendida como informação. Essa é a consequência negativa que especulações infundadas causam.

Na economia de mercado, especular é um movimento comum. É a aposta num fim baseado em números, projeções e fatores como o nervosismo do mercado. Entretanto, quando esse sentimento é impulsionado, o estrago pode ser grande. Veja o cenário que os produtores têm enfrentado nos últimos meses. Em plena crise pandêmica, com a economia frágil e perda do poder de compra, quem produz proteína animal se depara com altas de até 100% nos preços do milho e no farelo de soja. Juntos, esses insumos representam 70% dos custos da avicultura e da suinocultura.

Essa conta impactará o consumidor e o País. No mercado interno, o inevitável repasse de custos elevará os preços nas gôndolas. Para fora, sofreremos uma severa perda de competitividade, justamente quando os players internacionais retomam as atividades.

Além disso, com insumos tão caros, será inviável sustentar animais com menores índices de produtividade. Poderá haver redução do alojamento de aves e diminuição da oferta de produtos. Tudo baseado na projeção de que faltam grãos no mercado interno.

O fato, porém, foi refutado pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Conforme levantamento da pasta, há grãos suficientes para abastecer o mercado interno. Isso nos leva à conclusão de que especuladores com grãos em estoque estão retendo a circulação dos insumos, forçando altas artificiais.

Este quadro se fortalece na ausência de informações claras sobre os embarques internacionais. A produção nesta safra é superior em relação à de 2019. Também temos exportações equivalentes no mesmo período. Então, o que sustenta essas altas? A maior tensão vem das supostas compras futuras de insumos pelo mercado internacional.

Mas não há dados transparentes sobre essas compras. No Brasil, não há controle oficial sobre as exportações futuras. Algo diferente do que ocorre com os EUA, outro grande produtor mundial de grãos. Por lá, toda venda internacional é registrada pelo governo. Esse protocolo não gera entrave aos produtores e dá uma visão precisa sobre o quadro de abastecimento de insumos estratégicos.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) solicitou ao Ministério da Agricultura o monitoramento dessas vendas futuras. É uma demanda que vai além da equivalência competitiva. Tem impacto direto na inflação dos alimentos para a população brasileira. “Um erro terrível teorizar antes de termos informação”, disse Arthur Conan Doyle. Portanto, sem dados, a especulação ganha força. E, assim, a produção de alimentos enfraquece e o Brasil perde.

*PRESIDENTE DA ABPA

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