Transporte ruim pode emperrar crescimento do comércio eletrônico

Gargalo. Gerente de operações do Magazine Luíza afirma que logística do País não está preparada, e que pode haver um problema muito grave no Natal, e professor do Ibmec-RJ aponta que o setor de transporte de cargas é pouco atrativo para os investidores

Glauber Gonçalves e Mônica Ciarelli / RIO, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

O forte crescimento do comércio eletrônico no País passou de motivo de comemoração das lojas virtuais brasileiras a foco de preocupações dos empresários.

O modelo de negócios, extremamente dependente da logística, se esforça para driblar a falta de preparação das transportadoras para atender o aumento da demanda e pode enfrentar problemas no Natal, época em que as compras batem recordes.

A avaliação é do gerente-geral de operações e e-commerce do Magazine Luiza, Ronaldo Magalhães. "O Brasil não está preparado para atender a demanda. Nossa logística não está preparada", afirmou ontem em congresso promovido pela Associação Nacional de Jornais, no Rio. Segundo Magalhães, a maioria das transportadoras é pequena e ainda pouco profissionalizada.

Para o professor do Ibmec-RJ Ruy Quintaes, o problema ocorre porque o setor de transporte de cargas é pouco atrativo no Brasil. "Não é incompetência nem falta de vontade de investir. Mas as transportadoras enfrentam problemas de violência e de infraestrutura." O problema, afirma, ocorre tanto em estradas como aeroportos. "O governo tem aplicado poucos recursos nessa área, desestimulando o investimento das empresas", diz.

A falta de segurança e a infraestrutura deficiente trazem outro entrave, o alto preço dos seguros, avalia Quintaes. "No Natal, haverá um problema muito grave", declarou. Com um faturamento de anual de R$ 500 milhões apenas com e-commerce, o Magazine Luiza apostou em negociação prévia com as 17 transportadoras com as quais trabalha, para garantir a entrega dos produtos em dezembro.

"Essas empresas não estão acompanhando nosso crescimento. Por isso, temos ajudado as empresas a se desenvolver melhor", conta. O executivo, responsável pela área de relacionamento com os consumidores pela internet, explica que o contato com os fornecedores é constante. "Recebemos reclamações pelas redes sociais e entramos em contato com eles para avisar que houve um problema e para que seja solucionado", explica.

A crescente importância do relacionamento virtual com os clientes motivou a empresa a criar uma estrutura específica para atendê-los. Para Magalhães, o público que compra pela internet exige muita atenção e desconsiderá-lo pode trazer grandes prejuízos para a empresa. "A pessoa que compra um produto porque viu uma promoção no Twitter da empresa quer ser atendida pelo Twitter e não pelo telefone", diz.

Ele conta que um comentário de um ex-participante do reality show Big Brother no microblog, afirmando não ter recebido um produto que comprara pelo site do Magazine Luiza, pôde ser visto por seus 20 mil seguidores. "Solucionamos o problema dele rapidamente e depois ele postou um comentário positivo."

Direitos. De olho na escalada de reclamações que acompanham o aumento das vendas pela internet, o Ministério da Justiça divulgou ontem um documento com diretrizes para garantir os direitos do consumidor nos negócios na rede mundial de computadores. A secretária de Direito Econômico (SDE) do Ministério da Justiça, Mariana Tavares, explica que a intenção foi criar uma interpretação única sobre o tema para todos os Procons do Brasil. Antes, questões relacionadas ao comércio eletrônico ficavam sujeitas a interpretações do atual Código de Defesa do Consumidor. De outubro de 2004 a janeiro de 2010, foram registradas 22 mil reclamações.

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