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Trezentos e sessenta e seis

A assimetria dos efeitos da pandemia mostrou que ela foi muito mais trágica para os pobres

Ana Carla Abrão, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2020 | 05h00

Lá se foi o ano de 2020, passados 366 longos dias. Além dos arrastados dias de isolamento social e das duras notícias da pandemia, ainda tivemos de lidar com um dia a mais nesse ano tão duro. Sim, foi um ano bissexto com um triste balanço final. 

No campo econômico, o abismo fiscal nos espreita como consequência de uma fragilidade estrutural agravada pelas necessárias medidas de estímulo. O déficit primário deve se aproximar de R$ 800 bilhões em 2020, segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI).

Sem nenhum sinal de medidas que possam significar a reversão dessa tendência, a dívida/PIB deverá continuar crescendo nos próximos anos, minando a confiança dos agentes econômicos e impondo pressões adicionais sobre a rolagem da dívida pública. 

O auxílio emergencial custou mais do que o necessário e turbinou o que agora se comemora como uma recuperação em V, apesar dos sinais recentes de arrefecimento da atividade e das dúvidas sobre o impacto da interrupção no pagamento do auxílio e das dificuldades do governo em colocar algo no seu lugar.

A expectativa de crescimento do PIB em torno de 3,5% em 2021, segundo o relatório Focus publicado pelo Banco Central, em quase nada ajuda para reduzir o empobrecimento que o País vive há pelo menos uma década – e que será agravado pelos quase 4,5% de retração em 2020.

Também em nada ajuda Estados e municípios anabolizados por socorros e empréstimos que deverão, mais uma vez, adiar o inadiável ajuste estrutural desses entes.

As medidas de estímulo ao crédito pelo Banco Central ultrapassaram R$ 2,5 bilhões em alívio de capital, de compulsórios ou concessão de garantias. Estas, aliadas à inadimplência controlada pelo auxílio emergencial, garantiram que o mercado de crédito se mantivesse ativo e funcional.

Tanto as novas concessões quanto os saldos se mantiveram no terreno positivo no acumulado do ano, em particular nos segmentos de empresas, onde os saldos apresentam crescimento de dois dígitos. A ver agora como a combinação do fim do auxílio com um desemprego beirando os 15% afetará essa tendência e, consequentemente, a economia como um todo. 

Na saúde, o saldo não poderia ser pior: já são quase 200 mil mortos pela covid-19. Graças a um misto de negacionismo com irresponsabilidade por parte do governo federal, os números crescem marcados pela incompetência frente à uma situação que exige visão estratégica e capacidade logística.

Testes apodrecem sem uso e a vacinação aqui empaca enquanto o mundo já contabiliza imunizados nos cinco continentes. Fora a pandemia, há uma agenda de saúde pública a ser cuidada, mas ninguém sabe, ninguém viu.

Na educação, o grande marco foi a aprovação do novo Fundeb. Mais recursos para a educação – e uma distribuição mais granular e regionalizada deles – podem ser uma indicação de que a educação finalmente ganhou posições na lista de prioridades da agenda pública.

Vã ilusão, continua tudo como era antes. Com um ministério acéfalo há dois anos e nenhuma coordenação para a retomada organizada e segura das atividades escolares após um ano perdido, nem mesmo o mais otimista acreditaria que educação virou prioridade no Brasil.

Se fosse, deveríamos ver o avanço na discussão das carreiras e na revisão do piso salarial do magistério, permitindo transformar o aumento de recursos em proporcional melhora na qualidade da educação. Sem isso, boa parte dos recursos adicionais terão o mesmo destino dos anteriores, bem longe dos ganhos de aprendizagem.

O governo não fará isso. Quem sabe a sociedade civil, tão presente em todas as últimas conquistas, não tome para si mais esse papel.

Mas de todos, é o social o que mais sofreu neste ano. A assimetria dos efeitos da pandemia mostrou que ela foi muito mais trágica para os pobres. A despeito do (novamente) auxílio emergencial que tirou tantos da pobreza e evitou que outros tantos nela caíssem, e também da mobilização da sociedade civil, foi nas camadas mais baixas de renda que o ano se mostrou mais cruel.

O desemprego bateu, a perspectiva de uma vida melhor sumiu. Em particular para mulheres, pobres e mães. Andamos para trás na desigualdade de renda e nos indicadores de desenvolvimento humano. Tudo isso reforçado por um modelo de Estado que abriga os privilegiados e abandona os que dele dependem. Mesmo em tempos de pandemia.

Mas o ano acabou, ao menos isso. Não que a mudança do calendário faça tudo mudar magicamente no dia 1.º de janeiro. Mas não deixa de trazer alguma esperança de que algo de novo – e de bom – aconteça. 

Quiçá a vacina chegue e nos permita voltar ao normal. Quiçá nossos homens públicos se iluminem e retomem as reformas que nos colocarão nos trilhos. Quiçá nossa sociedade se engaje e cobre dos governantes responsabilidade e decoro. Quiçá novas lideranças assumam o vácuo que se abriu com a crise e apontem o caminho do avanço. Só assim teremos a garantia de que os próximos 365 dias serão melhores do que os últimos 366. 

Feliz ano novo a todos!

ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE

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