Michaela Rehle|Reuters
Michaela Rehle|Reuters

Tributo baixo torna diesel dos EUA competitivo

Preço do combustível teve alta de 32% desde julho, mas está entre os mais baixos do mundo

Cláudia Trevisan, correspondente, Impresso

27 Maio 2018 | 04h00

WASHINGTON - O diesel já teve alta de 32% nos Estados Unidos desde julho do ano passado, mas ainda assim o país registra o menor preço de combustíveis entre os países industrializados e emergentes, em razão do baixo nível de tributação incidente sobre o produto. Caminhões respondem por quase 70% dos transporte de carga nos EUA e repassam de maneira automática para o cliente as oscilações registradas nas bombas.

No dia 21 de maio, os americanos pagavam US$ 0,84 (R$ 3,07) por litro de diesel. Na mesma data, o preço no Brasil estava em US$ 0,98 (R$ 3,58), de acordo com dados do Global Petrol Prices. O patamar era um pouco superior aos US$ 0,96 (R$ 3,51) praticados na Argentina, mas bem abaixo do US$ 1,29 (R$ 4,71) do Uruguai.

Sem considerar a elevação no preço do diesel, o custo do transporte de cargas nos EUA bateu recorde no início deste ano e continua a crescer de maneira acelerada. A alta, que chegou a quase 13% em janeiro, desacelerou para 10% no mês passado, segundo o Crass Freight Index Report, que exclui os combustíveis do indicador.

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As principais razões para o aumento do frete são a aceleração no ritmo de crescimento da economia associada ao aumento de compras online e à escassez de motoristas de caminhão, que se transformaram em um dos profissionais mais cobiçados do país. Na disputa por profissionais, empresas oferecem uma série de benefícios e salários anuais que podem chegar a US$ 80 mil (R$ 292 mil) – a média dos que trabalham em longas distâncias é próxima de US$ 60 mil.

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A American Trucking Associations estima que havia uma carência de 51 mil motoristas em dezembro, alta de 40% em relação a igual período do ano anterior. A previsão é que a demanda não atendida chegue a 100 mil profissionais em 2021.

Preocupação. O temor de analistas é que a pressão sobre o frete se traduza em inflação, que também sofrerá influência da elevação dos preços de combustíveis. Caminhões transportam quase 70% da carga nos Estados Unidos e seus custos têm impacto sobre virtualmente todos os bens de consumo.

“O atual patamar de crescimento de volume e preço sinaliza que a economia americana não só está crescendo, mas que o nível de crescimento está se expandindo”, disse Donald Broughton, da Broughton Capital, responsável pela elaboração do Crass Freight Index. “Esse nível de aumento porcentual normalmente só é obtido nos momentos de saída de uma recessão, e não quando as estatísticas já estão fortes.”

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Segundo ele, o preço dos combustíveis é repassado automaticamente para os que contratam fretes, na forma de uma sobretaxa sobre o preço, que oscila de acordo com o que é cobrado na bomba.

Broughton afirmou que o uso intensivo de caminhões não é um problema nos EUA, já que essa modalidade transporta principalmente bens de maior valor e menor peso. “Fedex e UPS movem 1% do peso da economia americana, mas 15% de seu valor.” Trens e barcas costumam transportar commodities com maior densidade e menor preço, como carvão e grãos.

Dados do Departamento dos Transportes indicam que os caminhões são o meio mais utilizado para distâncias inferiores a 1,2 mil km, enquanto os trens são dominantes em distâncias de 1,2 mil km a 3,2 mil km.

“Nós desregulamos todo o setor de transporte entre 1977 e 1980, quando o setor de logística representava US$ 0,20 para cada dólar do PIB. Vinte anos depois, o valor caiu para US$ 0,09 porque a desregulamentação permitiu que o sistema ficasse muito mais eficiente.”

Mas a baixa taxação dos combustíveis nos EUA tem um custo para a sociedade que não é contabilizado de maneira clara, sustentam alguns analistas. De acordo com Mark Delucchi, da Universidade da Califórnia em Davis, no passado os tributos costumavam ser suficientes para a manutenção e construção de estradas no país. Há anos, isso deixou de ocorrer e o custo é arcado por todos os contribuintes.

O mais grave é que o nível de taxação não reflete outros custos associados ao impacto do uso de carros e combustíveis fósseis, os principais deles resultados dos efeitos da poluição sobre a saúde e o meio ambiente. Em estudo divulgado em 2008, Delucchi estimou esses custos em US$ 3,3 trilhões anuais.

O baixo preço relativo, por sua vez, estimula o uso de veículos, o que agrava os seus efeitos negativos. Levantamento da Tax Foundation mostra que, depois do México, os EUA têm a menor tributação sobre combustível entre os integrantes da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com US$ 0,50 por galão. Na Noruega, a cifra é de US$ 3,67.

 

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