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Tripla ameaça

Ao expelir Moro, Bolsonaro deflagrou uma guerra civil em meio a uma ‘invasão externa’

Fábio Alves*, O Estado de S. Paulo

29 de abril de 2020 | 04h00

Apesar de o risco de impeachment do presidente Jair Bolsonaro não ser o cenário base de investidores e analistas neste momento, a turbulência política dificilmente arrefecerá no curto prazo, com potencial de agravar outras duas crises: de saúde pública e da economia em recessão, em razão da pandemia do coronavírus.

É crescente o número de analistas que estão à espera do desenrolar da crise política nas próximas semanas para rever ou não projeções já sombrias para o PIB brasileiro, muitas das quais estimando queda de 5% ou mais em 2020, e para outras variáveis macroeconômicas. Ou seja, a turbulência política poderá levar a uma recessão mais profunda do que as estimativas apontam até agora.

O temor é que, mesmo que Bolsonaro sobreviva a um processo de impeachment, o caos político até lá poderá ter um custo fiscal enorme, com o governo cedendo às pressões e possíveis negociações com aliados de última hora para tornar permanente o aumento de gastos temporários para combater a crise do coronavírus. Pior: postergando a aprovação de reformas necessárias e afetando o crescimento potencial da economia quando a pandemia for controlada.

Por enquanto, é elevada a incerteza sobre o que vai acontecer com o governo Bolsonaro em meio a várias

investigações em curso. Na noite de segunda-feira, o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de inquérito para apurar as declarações do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro contra o presidente incluindo a de interferência no comando da Polícia Federal.

No radar imediato do mercado estão as investigações da CPI da Fake News, que tem na mira Carlos Bolsonaro, filho do presidente, e o inquérito para apurar quem financiou e estava por trás das manifestações que pediram o fechamento do STF e do Congresso, além da intervenção militar. Revelações a partir dessas duas investigações podem causar um estrago ao presidente Bolsonaro e a seus filhos.

Na sexta-feira passada, quando Moro pediu demissão e fez um longo pronunciamento com graves acusações contra o presidente, o estresse foi de quase pânico no mercado. A curva de juros registrou forte inclinação. A taxa do contrato de DI para janeiro de 2027 fechou na máxima de 8,59%, mais de 1 ponto porcentual em relação à véspera, de 7,182%. O dólar disparou 2,40% para novo recorde histórico até então. de R$ 5,6670. A moeda americana só não subiu mais porque o Banco Central gastou US$ 4,275 bilhões em oito intervenções.

Os investidores entraram numa postura defensiva, temendo uma piora do cenário político. Houve até o temor de que, se o estresse nos preços dos ativos, como os contratos futuros de juros, permanecesse elevado como na sexta-feira, o Tesouro Nacional passaria ter grandes dificuldades para se financiar, vendendo papéis da dívida pública.

Nesta semana, o nervosismo diminuiu um pouco, com a negociação entre o governo Bolsonaro e os líderes do Centrão, para a formação de uma base no Congresso que evite o avanço de um impeachment, e também com o apoio inequívoco do presidente ao ministro da Economia, Paulo Guedes, alvo de fritura nas últimas semanas, e à agenda econômica dele de austeridade fiscal.

Apesar desse alívio momentâneo, vários gestores de fundos de investimentos estão preferindo o risco internacional ao doméstico neste momento. No mercado acionário, por exemplo, preferem a bolsa americana a do Brasil, refletindo a percepção de que a recuperação da economia dos Estados Unidos será mais rápida do que a brasileira.

Aqui, a contaminação do coronavírus ainda está na fase de aceleração, com aumento do número de mortes, o colapso do sistema de saúde de vários Estados e a escassez de testes. O pico da pandemia ainda está longe no Brasil e não deve ocorrer um relaxamento das regras de isolamento social a ponto de permitir a retomada integral da atividade econômica tão cedo.

Além disso, a crise política reduziu as apostas de um corte mais agressivo de juros pelo Copom – ou até de qualquer redução da taxa Selic – e elevou o temor de um descontrole fiscal no futuro próximo. O sentimento do mercado é de que, mesmo que consiga barrar um processo de impeachment, Bolsonaro, ao expelir Moro do governo, deflagrou desnecessariamente uma guerra civil em meio a uma invasão externa, a do coronavírus.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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