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Triste Ucrânia

A atual crise na Ucrânia é mais um episódio que ilustra quão limitadas são as atuais lideranças mundiais. É história em que não há inocentes.

Marcelo de Paiva Abreu*, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2014 | 03h47

A situação política deteriorou-se com a resistência popular ao bloqueio do governo de Yanukovich, apoiado por Moscou, à aproximação com a União Europeia. A resistência culminou em dezenas de mortes, até hoje mal elucidadas, e na deposição do presidente que era um cleptocrata autoritário, eleito com apoio da população etnicamente russa. Os resultados eleitorais do último pleito presidencial indicaram intensa polarização, com o voto separado pela linha divisória diagonal que vai de Kharkiv ao norte da Moldova; ao sul Yanukovich, ao norte Timoshenko. O novo governo em Kiev manifestou planos de adesão à União Europeia e à OTAN, além de obstar movimentos separatistas para defender a integridade territorial do país. Mencionou, também, a pretensão de rever o acordo com a Rússia sobre a base naval de Sebastopol, na Crimeia.

Há boas razões para a desconfiança de Moscou. A OTAN, desde 1990, a despeito de promessas em contrário, vem promovendo verdadeiro cerco à Rússia, recrutando novos membros entre antigos membros do Pacto de Varsóvia e ex-repúblicas da URSS.

O tratamento de minorias russas nas ex-repúblicas soviéticas foi objeto de críticas até mesmo de observadores independentes. A forma de tratar minorias nacionais que são maioria em escala regional, como é o caso de diversas regiões da Ucrânia, é problema ainda mais intrincado.

O uso de Sebastopol como base russa no Mar Negro foi objeto de tratado entre Ucrânia e Rússia celebrado em 2012, que estendeu a vigência de acordo anterior até 2042. A renovação foi aprovada em votação apertada no Parlamento ucraniano. É compreensível que haja descontentamento ucraniano em relação ao assunto, mas é irrealista qualquer proposta de modificação unilateral do que foi acordado.

As ações unilaterais russas de ocupação da Crimeia devem ser censuradas, mas as críticas devem levar em conta as dificuldades russas. O mero enfrentamento OTAN-Rússia apenas alimenta o clima de histeria nacionalista que reina na Rússia e, também, entre os cultores da guerra fria por toda parte, o que certamente não contribui para uma solução equilibrada para as atuais tensões.

Não parece haver empenho em Moscou na generalização, para o resto da Ucrânia, da fórmula de simples ocupação adotada na Crimeia. A proposta política que a Rússia está defendendo para a solução do impasse não é absurda. De um lado, federalização, como forma de proteger os interesses das populações do leste da Ucrânia em relação a Kiev. Por outro lado, neutralidade, ou seja, a não adesão ucraniana à OTAN.

Artigos apaixonados têm sugerido paralelismo entre a ação russa na Crimeia e a crise dos sudetos, que resultou no esquartejamento da Checoslováquia em 1938. A comparação é despropositada. A região dos sudetos nunca foi parte da Alemanha ou dos Estados que a constituíram até que a Áustria virasse província do Reich em 1938. A Checoslováquia era aliada da França e da Grã-Bretanha, que a entregaram vergonhosamente em Munique. O paralelo talvez sirva para ressaltar a fraqueza dos atuais líderes políticos ocidentais: Chamberlain e Daladier parecem apresentáveis quando comparados aos líderes políticos europeus de hoje. Putin, embora tenha muitos defeitos, não deve ser comparado a Hitler. Tampouco Catarina II, por anexar a Crimeia em 1783, ou James Polk, por anexar parte do México em 1848.

A imposição de sanções à Rússia e suas prováveis retaliações em resposta aumentam o risco de recessão na Europa. No longo prazo, a deterioração das relações entre a Rússia e a Ucrânia contribuirá para a redução da dependência da Europa em relação ao gás russo e para a reorientação da economia russa para atender às demandas chinesas. Será que isso estrategicamente interessa ao Ocidente?

*Marcelo de Paiva Abreu é doutor em economia pela Universidade de Cambridge, é professor titular no departamento de Eonomia da PUC-Rio.

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