Tristes trópicos

Em entrevista à rede de TV ABC News dia 10, o presidente dos EUA, Barack Obama, amenizou o quadro sombrio que vinha fazendo há vários dias da economia norte-americana, afirmando que é um momento de "tempestade financeira", mas que não se trata de uma crise tão severa quanto a Grande Depressão dos anos 30. Disse que o setor bancário de seu país precisa de uma dose de firmeza diante da reação desfavorável da Bolsa de Nova York ao novo plano de estabilização dos bancos, divulgado pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner. Segundo ele, a esperança de Wall Street é "uma saída fácil, e não existe uma saída fácil". Depois disso, já teve seu pacote de mais de US$ 1,5 trilhão aprovado e negocia cada tostão.Certamente Obama preferia ter recebido quase 4 mil prefeitos na Casa Branca no dia 16 de fevereiro, quando o país comemora o Dia do Presidente. No entanto, debruçou-se na construção de um painel de especialistas para supervisionar a reestruturação de montadoras. É para isso que foi eleito: resolver, ajudar e ensinar a construir soluções de desenvolvimento.Suas ações sugerem que Tristes trópicos ainda hoje é a melhor referência para a compreensão da relação do ancião e do novo, da civilização e do progresso. Sobretudo nas Américas, porque assim é fácil enxergar como aproveitamos mal, muito mal, as oportunidades e os recursos - tanto os naturais quanto o dinheiro público. Na América do Norte, Obama já descobriu isso. Na América do Sul, Lula ainda não. Recurso público para o presidente é encontro com prefeitos, eleição (ou carnaval). No discurso, é dinheiro que vai chegar no "sertanejo sofrido". Na prática, é gastança eleitoral. Não é ponto de partida para rever dogmas. É motivo para gastar mais mesmo sem saber no que e como se gasta. Como os R$ 253 mil informados pelo Palácio do Planalto como gasto total com o Encontro Nacional dos Prefeitos e Prefeitas. Usando a simples aritmética e partindo de um cálculo muito conservador que o transporte de cada um dos cerca de 4 mil prefeitos custou R$ 300, independentemente se aéreo ou rodoviário, a fatura é de R$ 1,2 milhão. Se cada prefeito levou a esposa ou um único assessor, a conta dobra e passa para a casa dos milhares: exatos R$ 2,4 milhões. Não estão contabilizadas diárias, ou se a diária cobre despesas com hospedagem, refeição, etc. O custo de produção e realização do "evento" o governo divulgou: R$ 253 mil. Uma semana depois, o Palácio do Planalto reconheceu que o Ministério das Cidades gastou R$ 1,3 milhão na realização do Encontro Nacional dos Prefeitos e Prefeitas. Com isso, o gasto total com o evento chegou a pelo menos R$ 1,8 milhão, quantia 7,4 vezes maior que o valor oficial divulgado anteriormente. Esse valor não inclui despesas pagas pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal. Coube ao ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Múcio, divulgar o novo valor e dizer que "não ia esconder uma conta de R$ 1,6 milhão" justificando assim: "Não tivemos intenção de fazer nada escondido." Será que ele mesmo acredita neste valor?Foi um encontro de repetições e uma única novidade. Lula também voltou a criticar os países ricos pela crise financeira mundial. Afirmou: "Todos vocês estão acompanhando pela imprensa uma crise que nasceu no sistema do coração dos países ricos. E que, por irresponsabilidade deles, ela começa a atingir os sistemas periféricos na medida em que diminuiu o crédito em dólar e muitos países dependiam desse crédito."A novidade é que, pelo discurso do presidente e com cinco meses de atraso, o Brasil está em crise. Se depender de Obama, a crise vai passar. Lula não enfrenta a crise, apenas apresenta uma lista de intenções e reafirma discursos velhos e de frases apenas veementes, com cara de quem não sabe de nada. E não é só por isso que ele e Obama são tão diferentes. Hoje, enquanto Obama precisa imprimir dinheiro - mais de US$ 1,5 trilhão -, o presidente brasileiro promove gastança e usa dinheiro público "recebendo" prefeitos. Se continuar assim, Lula também vai imprimir dinheiro.Na nossa parte dos trópicos, os bilhões envolvidos na celebração com prefeitos vão se transformar numa conta muito mais salgada. Pelo jeito, enquanto o presidente Lula comemorava com 4 mil prefeitos uma gastança eleitoreira, o brasileiro pôde concluir que ainda vive nos tristes trópicos. Aqueles mesmos descritos nos anos 70 na obra do francês Claude Lévi-Strauss. *Kássia Caldeira, jornalista, é doutora em Socioeconomia do Desenvolvimento pela EHESS de Paris. E-mail: kassia.caldeira@globo.com

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