Troca da guarda no mundo das finanças

Duas semanas atrás, participei de uma conferência celebrando o bicentenário do Banco Central Finlandês - a Finlândia é um caso incomum no qual o banco central é, na verdade, mais velho do que o próprio país.

Barry Eichengreen, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Todos os funcionários importantes dos principais bancos centrais europeus estavam presentes, junto com os mais destacados de seus pares no restante do mundo. O encontro teve a presença de Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, mas todo sabiam que ele está de saída, pois seu mandato chega ao fim ainda este ano. O principal candidato à sua sucessão, Mario Draghi, também estava presente, e recebeu mais atenção ainda dos notáveis reunidos. Tinha-se a sensação de que o mundo das finanças internacionais estava se preparando para uma troca da guarda.

Mal sabíamos nós que as duas semanas seguintes trariam notícias ainda mais impactantes para o universo financeiro, com a detenção e agora renúncia de Dominique Strauss-Kahn e a busca por um novo diretor para o Fundo Monetário Internacional.

A questão passou a ser formulada em termos que especulam se o próximo diretor-gerente do FMI será um europeu ou um economista vindo dos mercados emergentes. Antes da prisão de Strauss-Kahn, estava em formação um consenso segundo o qual o próximo diretor-gerente seria escolhido por meio de um processo aberto, e a decisão seria tomada em favor do candidato que se mostrasse mais qualificado para o cargo. No termo "processo aberto" está implícita a ideia de que a Europa não teria mais um lugar privilegiado nessa disputa. Em outras palavras, a ideia tradicional de que o FMI seria chefiado por um europeu não se aplica mais à realidade.

Agora, no entanto, os europeus parecem estar se unindo. Voltamos a ouvir argumentos que defendem a escolha de um diretor europeu para o FMI. Se antigamente tais argumentos tinham como base um confortável acordo com os Estados Unidos - os americanos ficam com a presidência do Banco Mundial, enquanto os europeus ficam com a diretoria do FMI -, agora eles se baseiam na ideia de que só um europeu seria capaz de administrar com eficácia a crise na Grécia. Diz-se que somente um europeu seria capaz de fazer chocar o crânio dos gregos com o dos alemães. Somente um político europeu que tenha boas relações com a chanceler Merkel e também goze de credibilidade frente ao público alemão poderá convencer a Alemanha a oferecer a ajuda financeira adicional de que o atribulado governo grego tanto necessita.

Somente um político europeu que tenha um bom relacionamento com o primeiro-ministro George Papandreou e que conte com uma credibilidade considerável perante o público grego poderá convencer este país a aceitar uma nova rodada de dolorosas reformas. Talvez esta pessoa seja Christine Lagarde, ou talvez outra pessoa; mas, seja quem for, o diretor-gerente em questão deverá ser europeu.

Esta é, ao menos, a argumentação que é exposta. Na minha opinião, essa linha de raciocínio está equivocada. Não resta dúvida de que a crise mais urgente do momento é a europeia. Mas a ajuda que o continente precisa do FMI não é uma espécie de mediação política. A necessidade não é simplesmente a de um diretor-gerente que seja capaz de massagear as combalidas almas dos políticos alemães e gregos e tenha autoridade para convencer o público europeu.

Em vez disso, a Europa precisa que o FMI ofereça conselhos construtivos quanto à melhor forma de reestruturar as insustentáveis dívidas da Grécia e de outros países em crise. O papel do FMI não é simplesmente atuar como um intermediário político. O Fundo não foi criado para promover sessões de terapia conjugal, e sim para proporcionar um conjunto robusto de conhecimentos e conselhos financeiros. A instituição precisa de um diretor-gerente que tenha consciência disso e conheça em primeira mão o funcionamento e as nuances da reestruturação de dívidas. A escolha do próximo diretor-gerente deveria ser feita com base nesses critérios, e não na questão da nacionalidade.

A quem estamos nos referindo? Uma boa sugestão seria Angel Gurria, que atualmente chefia a OCDE, o clube dos países de alta renda. Ainda jovem, trabalhando para o ministério mexicano das finanças, Gurria supervisionou a negociação do Plano Brady no início da década de 90.

O tipo de troca de obrigações com base no modelo de mercado que Gurria ajudou a estabelecer é exatamente aquilo de que a Grécia necessita agora. O Plano Brady mexicano ofereceu aos investidores um cardápio de novas obrigações em troca dos títulos da dívida que estes já possuíam.

Algumas dessas novas obrigações incluíam dispositivos permitindo ao governo mexicano recomprá-las a preços favoráveis, se a economia apresentasse um resultado melhor do que aquele previsto pelos mais pessimistas dentre os detentores de obrigações. E a troca de obrigações no México foi estruturada de modo a não abrir um rombo no balanço patrimonial dos bancos estrangeiros.

Este é justamente o tipo de conselho e conhecimento que o FMI deveria estar oferecendo agora. Por sua vez, isto sugere em quais termos a escolha do próximo diretor-gerente deve ser formulada: o importante não é sua nacionalidade, e sim se ele ou ela trará ao Fundo o conhecimento relevante.

Também é importante notar que Gurria presidiu a OCDE por cinco anos sem nenhuma sombra de escândalo significativo. Talvez o fato de morar em Paris, onde fica a sede da OCDE, seja suficiente para que Gurria seja considerado um europeu honorário. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

PROFESSOR DE ECONOMIA E CIÊNCIA POLÍTICA DA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, EM BERKELEY

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