SUZANNE PLUNKETT | REUTERS
SUZANNE PLUNKETT | REUTERS

Troca de ações

Pela terceira vez em 15 anos, Bolsa de Frankfurt tenta negociar uma fusão com London Stock Exchange

The Economist

07 de março de 2016 | 03h00

Em agosto de 1880, oito Inuits da costa nordeste do Canadá aceitaram viajar para a Europa a fim de serem exibidos em um zoológico humano. Pouco depois, morriam de varíola, antes de retornar ao seu lar. Os esqueletos de Abraham Ulrikab e da maior parte dos seus companheiros foram descobertos há pouco tempo, montados completamente nos depósitos de um museu francês para serem exibidos. Os anciãos Inuits querem que os restos mortais de seu povo, até mesmo dos que morreram longe dos territórios de caça do Norte, nos séculos 19 e 20, voltem para o seu país. Mas isso levará muito tempo.

O governo de Nunatsiavut, uma região Inuit do norte do Labrador criada em 2005, já recuperou restos humanos de museus de Chicago e da Terranova. David Lough, vice-ministro da Cultura de Nunatsiavut, não sabe ao certo quantos outros há para serem reclamados. Mas ele acredita que, em 50çois Hollande, concordaram em colaborar para a repatriação. Mas a África do Sul esperou oito anos por Saartjie Baartman, a “Vênus hotentote”, depois que Nelson Mandela solicitou seu regresso, em 1994. Para Abraham Ulrikab e seus amigos, pelo menos, a jornada de volta começou.

Mesmo com as transações do mercado financeiro sendo realizadas num número cada vez maior de plataformas, as empresas que controlam as bolsas de valores dão prosseguimento a seu movimento de consolidação. No ano passado, a Nasdaq fez um acordo para comprar a Chi-X Canada; a Intercontinental Exchange (ICE) comprou a Interactive Data; e a Deutsche Börse abocanhou a 360T. Com os negócios em ritmo aquecido, nos últimos dez anos o setor assistiu ao surgimento de cinco grandes potências: London Stock Exchange Group (LSE), de Londres; Deutsche Börse, de Frankfurt; CME Group, de Chicago; ICE, de Atlanta; e HKEX, de Hong Kong. No fim de fevereiro, começaram a circular notícias de que, mais uma vez, a LSE e a Deutsche Börse estão conversando sobre uma fusão.

Antes, a única fonte de receitas de instituições como a LSE eram as tarifas cobradas sobre operações de compra e venda ou listagem de ações. Mas, quando as autoridades reguladoras permitiram que plataformas de transações rivais invadissem o território das bolsas, essas tarifas se reduziram e elas foram obrigadas se aventurar em outras linhas de negócio.

A LSE e instituições similares compraram bolsas de derivativos, provedoras de dados, compiladores de índices e câmaras de compensação. A ideia era oferecer aos clientes todos os serviços envolvidos no processo de compra de um ativo financeiro, de pesquisas a compensação e liquidação. Atualmente, só um décimo do faturamento da LSE e da Deutsche Börse provém de transações com ativos financeiros. A estratégia deu bons resultados. Nos últimos cinco anos, as ações da LSE tiveram desempenho 200% superior ao do índice FTSE 100.

Apesar disso, os dois grupos adotaram modelos ligeiramente diferentes. A bolsa alemã optou pelo “silo vertical”, em que os clientes de um produto seu são obrigados a utilizar também os demais. Ao operar na bolsa de derivativos do grupo, a Eurex, o investidor tem que usar sua câmara de compensação, por exemplo. A adoção do silo vertical fez com que para os alemães fosse atraente estender os negócios para outras áreas, já que os novos clientes poderiam ser direcionados ao restante dos serviços oferecidos pelo grupo. Por sua vez, a LSE optou por dar livre acesso a suas bolsas e também à sua câmara de compensação.

Agora, a União Europeia (UE) está obrigando as bolsas da região a abrir seus silos e deixar que os clientes conduzam onde bem entenderem a execução e compensação de suas operações. Isso deixa a Deutsche Börse mais exposta. Além do mais, a força da LSE em ações e índices complementa a exibida pela bolsa alemã em derivativos. Colocar a Eurex Clearing e a LCH.Clearnet sob o mesmo guarda-chuva também permitirá que clientes das duas câmaras possam mobilizar menos garantias na hora de executar suas operações de compensação.

Tentativas anteriores de fundir a bolsa de Londres com a de Frankfurt, realizadas em 2000 e 2005, não deram certo. A Comissão Europeia, que em 2012 bloqueou um negócio entre a Deutsche Börse e a Nyse Euronext, pode criar caso. E uma eventual saída da Grã-Bretanha da UE deve complicar ainda mais as coisas. Mas os incentivos para que as duas bolsas somem forças não desaparecerão.

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