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Celso Ming
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Troca de xerife

A demissão do truculento ministro Guillermo Moreno, da Argentina, é o reconhecimento tardio do fracasso da atual política econômica do governo de Cristina Kirchner. Mas não é garantia de conserto.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2013 | 02h11

Formalmente apenas o secretário do Comércio Interior, Moreno era quem imperava de fato na política econômica do seu país. Para obter seus objetivos, intimidava, insultava, perseguia, falsificava. Chegou a receber negociadores com revólver sobre sua mesa de trabalho.

Foi Moreno quem destruiu a credibilidade do Indec, o organismo encarregado das estatísticas oficiais, porque o obrigou a falsificar dados sobre inflação, PIB e desemprego. A inflação foi artificialmente baixada para a casa dos 9% ao ano enquanto a real, apontada por consultorias independentes, oscilou em torno de 25%. A revista The Economist anunciou em 2012 que deixaria de publicar, como de fato deixou, as estatísticas econômicas da Argentina, porque não tinham credibilidade.

Para tentar segurar a inflação, Moreno impôs o congelamento de preços e ameaçava com devassas, multas asfixiantes e bloqueio de matérias-primas os empresários que tentavam driblar seus despachos. Para evitar a fuga de dólares, foi também ele quem perseguiu os operadores do câmbio paralelo e impôs restrições à compra de moeda estrangeira (cepo cambial). Não teve escrúpulos em pagar despesas correntes do governo com reservas cambiais e impôs a política de travas às importações argentinas que tanto prejudicou o comércio do Mercosul.

O resultado dessa política foi a paralisia dos investimentos, desabastecimento (até mesmo na área do trigo, cuja produção é uma das maiores do mundo), prostração e, não menos importante, derrotas do governo nas duas últimas eleições regionais.

Bueno, se fué Moreno, qué sucede ahora? A área econômica será comandada por nova dupla: pelo ministro da Economia, Axel Kicillof, e pelo chefe de Gabinete, Jorge Capitanich. O próprio Moreno chamava o intervencionista e radical Kicillof, de quem não gosta, de "el soviético".

É possível que seu primeiro movimento seja divulgar os números verdadeiros da inflação e restabelecer a credibilidade do Indec. Mas isso só retifica registros oficiais e pode consertar alguns aparelhos de medição. Os problemas subjacentes exigem soluções dramáticas e não se sabe se o combalido governo de Cristina está disposto a pagar o preço delas.

A ideia de estabelecer um regime de câmbio múltiplo, defendida por Kicillof, crava um dólar para exportações, outro para importações, outro para operações financeiras e outro ainda, para viagens ao exterior. É receita infalível para novas distorções, como superfaturamento das exportações e subfaturamento das importações.

A eventual moralização da inflação, por sua vez, deverá acirrar pressões por reajustes de preços e de salários. Por trás de tudo está a estratégia não revelada da sobrevivência política da presidente Cristina nos seus dois últimos anos de mandato.

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