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Trump, até quando?

Essa postura radical nem de longe é benéfica para a economia mundial

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2017 | 05h00

Bem no início de um dos momentos de maior audiência do programa humorístico Saturday Night Live (SNL), o mais famoso nos Estados Unidos, o ator Alec Baldwin, numa imitação já antológica de Donald Trump, olha para a câmara e dispara ao reencenar a primeira entrevista coletiva à imprensa do presidente eleito americano: “Em 20 de janeiro, eu, Donald J. Trump, vou me tornar o 45.º presidente dos Estados Unidos e, então, dois meses depois, Mike Pence (vice-presidente eleito) se tornará o 46.º”.

Nunca uma piada pareceu tão tangível – e menos um comentário jocoso do que uma previsão sobre o cenário político – aos ouvidos de investidores e analistas diante das declarações polêmicas de Trump desde a campanha eleitoral para presidência dos Estados Unidos. No cenário para o dólar e o fluxo de capitais nos mercados globais é legítima a seguinte pergunta: Trump conseguirá terminar seu mandato?

Após a vitória do republicano nas eleições, em 8 de novembro, os mercados globais ensaiaram um movimento de alívio, especulando que Trump iria adotar incentivos fiscais, incluindo corte de impostos e investimentos públicos em infraestrutura, que levariam a um crescimento mais acelerado da economia americana. O dólar entrou em trajetória de alta frente às principais moedas internacionais, uma vez que expansão mais aquecida da economia americana resultaria em inflação mais alta e, por tabela, mais elevações dos juros por parte do Federal Reserve (Fed), o banco central americano.

Mas à medida que se aproxima a posse de Trump, nesta sexta-feira, os investidores começam a duvidar se o governo dele será marcado por políticas pró-crescimento. Até agora, ele não detalhou um plano concreto de estímulos fiscais. Pior: aumentou o temor de que o “populismo protecionista”, que marcou as declarações do republicano durante a campanha presidencial, se torne uma realidade quando ele assumir o comando da maior economia do mundo. Esperava-se que ele mudasse a postura agressiva adotada na campanha. Mas essa esperança está dando lugar a uma dura realidade.

Trump já prometeu elevar tarifas de importação, o que acirraria uma guerra comercial com os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, como União Europeia, China e Japão. Ele também causou polêmica ao cogitar um imposto de fronteira para impedir que empresas migrem para o México a fabricação de bens e produtos e, por tabela, empregos americanos. Essa postura radical nem de longe é benéfica para a economia mundial. A mais recente polêmica foi uma quebra da tradição de um presidente não comentar o valor do dólar. Ao se referir à política cambial na China, Trump disse que o dólar está muito valorizado e isso “está nos matando”. Foi o suficiente para a moeda americana derreter no mercado internacional.

O radicalismo de Trump não vem se limitando a temas econômicos. Ele vem disparando comentários e ataques aos principais líderes mundiais. Além de acusar os chineses de fazer manipulação da sua moeda, mantendo o yuan artificialmente desvalorizado, Trump questionou a política de “uma única China”, desafiando a soberania do país asiático sobre Taiwan. Ele tachou de “erro catastrófico” a postura de acolhimento de refugiados da líder alemã Angela Merkel, além de dizer que a União Europeia é um veículo da Alemanha. Ele voltou a chamar de obsoleta e ultrapassada a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) por não combater o terrorismo como deveria. O único líder salvo, por enquanto, das invectivas de Trump é o presidente russo, Vladimir Putin, cuja reputação não é propriamente a de quem trabalha pela estabilidade geopolítica mundial.

O que preocupa em relação a Trump é que governar um país, especialmente a maior potência mundial, exige muito mais do que bravata de quem comanda um programa de TV, como o republicano fazia ao estrelar O Aprendiz e disparar “você está demitido!”. Não são poucos os que veem Trump como uma ameaça à paz mundial. As declarações recentes dele vão além de criar polêmicas e manchetes de jornais e TVs: contribuem para empurrar os Estados Unidos ao isolamento mundial. Até quando?

Essa postura radical nem

de longe é benéfica para

a economia mundial

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