Saul Loeb / AFP
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Donald Trump aumenta pressão sobre a China e ameaça elevar tarifas para 25%

Em um novo capítulo da tensão entre os dois países, Trump indica que pode aumentar alíquota sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses; governo brasileiro e representantes do setor privado veem ameaça com preocupação

Lu Aiko Otta, Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2018 | 07h02
Atualizado 01 Agosto 2018 | 22h38

WASHINGTON - O presidente americano, Donald Trump, quer aumentar de 10% para 25% a tarifa de importação sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses. Nesta quarta-feira, 1º, em mais um capítulo da guerra comercial entre os dois países, o representante comercial dos Estados Unidos, Robert Lighthizer, disse que Trump determinou que sua equipe estude um aumento na alíquota, proposta em junho, em resposta à decisão da China de retaliar os EUA após tarifas aplicadas por Washington sobre produtos chineses. 

“O governo Trump continua a pedir à China que pare com suas práticas injustas, abra seu mercado e se envolva em uma verdadeira concorrência no mercado”, disse Lighthizer em comunicado. 

A consultoria inglesa Capital Economics projeta que, se todos os países adotarem tarifas de importação no nível que propõe Trump, de 25%, o PIB do mundo declinaria até 3,0%.

A nova ameaça é vista com preocupação pelo governo e pelo setor privado brasileiros. Embora em tese isso possa aumentar as exportações do Brasil para a China em produtos como a soja, o entendimento é que todos sairão perdendo no médio e longo prazos, com a retração da economia, o enfraquecimento do sistema internacional de comércio e o aumento da insegurança jurídica. Além disso, a indústria teme o desvio, para outros mercados inclusive o brasileiro, dos produtos industriais que a China hoje vende para os EUA.

“Uma guerra comercial acaba sendo ruim para todos os envolvidos. Ninguém sai vitorioso. Perde o comércio global. Podemos ter ganhos eventuais, mas que no longo prazo podem não se sustentar”, disse ao Estado o ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Jorge.

Dados da balança comercial divulgados nesta quarta-feira mostram que o volume de soja embarcada para a China aumentou 44% em julho, ante julho do ano passado, alcançando um total de 8 milhões de toneladas. “É muito cedo para afirmarmos, mas esse movimento pode ser um indício de que a soja brasileira pode estar, no momento, aumentando a sua participação no mercado chinês”, disse o ministro. “Entretanto, é importante destacar que, de modo geral, ainda não há impactos estatísticos nas exportações e importações brasileiras, tampouco há reportes de impacto sentido pelos setores.”

A alta nas vendas de soja para a China não são razão de euforia porque, no entendimento da área técnica, o grão produzido pelos EUA que antes ia para a China pode “inundar” o mercado mundial e provocar uma queda nos preços internacionais, prejudicando inclusive as exportações brasileiras. Além disso, avalia-se na área técnica do governo, que o aumento episódico dos embarques do grão nem de longe compensa os estragos do protecionismo no comércio mundial.

Para o setor industrial, o risco que a concretização dessa ameaça de Trump traz é o desvio do comércio. “O grande medo é a China querer colocar sua produção em outros países”, disse o diretor de Desenvolvimento Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Abijaodi. “Se a sobretaxa for mesmo aplicada, acho que vai haver um desvio grande de comércio, que será problema para nossa indústria.”

Segundo Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, a escalada da guerra comercial poderá resultar em um aumento no custo de financiamento das empresas, sobretudo as de países emergentes como o Brasil. “O embate causa insegurança e maior risco no comércio exterior, o que significa financiamento mais caro para todos que exportam. O custo de financiamento já é mais caro em países emergentes, que podem sofrer mais ainda.”

A aplicação unilateral de restrições à importação fere as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC). “É muito ruim, porque tira o poder de uma entidade que dita as regras do comércio mundial”, avaliou Abijaodi. /COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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