Trump, comércio e zumbis

Quase quatro décadas se passaram desde que Daniel Patrick Moynihan fez esta afirmação que ficou famosa: “de repente o Partido Republicano se tornou um partido de ideias”. Esta declaração ainda é verdadeira, mas com uma modificação; hoje os republicanos são um partido de idéias zumbis  – idéias que deviam estar mortas há muito tempo,  porém continuam vagando por aí, corroendo os cérebros dos políticos.

Paul Krugman, O Estado de S.Paulo

21 Março 2018 | 21h52

O mais importante no caso dessas idéias zumbis é a insistência dos que se posicionam “do lado da oferta” de que o corte de impostos devidos pelos ricos produz milagres econômicos e, inversamente, um aumento dos tributos no caso das pessoas ricas é uma receita para o desastre.

A crença nesta doutrina sobreviveu ao boom que acompanhou as elevações de tributos decididas por Bill Clinton, e à recuperação medíocre e eventual catástrofe que se seguiram aos cortes de impostos decididos por George W. Bush, ao fiasco no Texas e outras coisas mais.

E a escolha de Larry Kudlow para chefiar o Conselho Econômico Nacional confirma que a idéia zumbi da redução de impostos está semimorta. Kudlow acredita ardentemente nas virtudes infinitas da redução de tributos, apesar de seu histórico de previsões baseadas nessa crença que, como disse Jonathan Chait da revista New York “elevou um equívoco monumental a uma forma de arte performática”.

Contudo a política econômica vai além dos tributos; o próprio Trump, embora disposto a assinar qualquer tipo de corte decidido pelo Congresso, parece muito mais interessado na política internacional, em particular os supostos males dos déficits comerciais. E é neste aspecto que as coisas ficam interessantes.

Veja, agora que “globalistas” como Gary Cohn se afastaram, todas as pessoas que assessoram Trump no campo da economia internacional são, como aqueles que o aconselham nas demais áreas, escravos da idéias zumbis. Mas há mais de um tipo de zumbi. Na verdade são duas facções – igualmente equivocadas, mas em sentidos diferentes, quase opostos.

Poderíamos dizer que, no que se refere ao comércio internacional, o mundo de Trump caminha para uma espécie de guerra civil zumbi.

De um lado temos os neomercantilistas – pessoas como Peter Navarro, o czar do comércio de Trump, que vê o mundo do comércio como uma história de vencedores  e perdedores: países com superávits comerciais vencem  e aqueles com déficits comerciais perdem.

Mas a lógica e a história indicam que esta é uma opinião  absurda: superávits comerciais são quase sempre sinal de fragilidade e déficits comerciais às vezes supõem força (em termos aritméticos, um país que atrai mais investimento externo do que investe no exterior tem de contabilizar um déficit comercial). E os neomercantilistas têm o hábito de cometer erros crassos, como compreender mal como funcionam os impostos sobre valor agregado.

Mas Trump lhes dá atenção porque as idéias insanas que passam na cabeça deles se encaixam na insanidade dele. Eles lhe dizem o que ele deseja ouvir e seus erros atendem aos instintos dele,  e em se tratando de política ele não necessita de nenhuma educação.

Entretanto essa não é a única facção expressando idéias absurdas e perigosas sobre economia internacional. O governo Trump também abriga o que poderíamos chamar de neodefensores do padrão ouro: pessoas que acham que a força de uma nação é medida pela força da sua moeda e se recusam a ver qualquer aspecto negativo num dólar forte, e jamais encontram alguma razão para sua desvalorização.

Como o neomercantilismo, ou no caso dos adeptos da economia do lado da oferta, esta posição foi desmentida muitas vezes – e escrevi isto em 1987! – mas continua rondando por aí porque atende às preocupações dos ricos e poderosos.

Até agora o mais visível defensor da moeda dentro do  governo é David Malpass, subsecretário do Tesouro na área de assuntos internacionais, uma posição de grande influência política, embora sob Trump , quem sabe?

Malpass  é  ex-economista chefe do Bear Stearns, um homem que, como Kudlow, tem um histórico de opiniões erradas sobre tudo. Em particular, contudo, em 2011, publicou um artigo em uma coluna de opinião declarando para resolver seus problemas econômicos os Estados Unidos precisavam de um dólar mais forte (e juros mais altos).

Uma afirmação bizarra. Afinal, nessa época a taxa de desemprego era ainda de 9% e um dólar mais forte pioraria a situação. A razão? Porque o dólar valorizado tornaria os produtos americanos menos competitivos, aumentaria o déficit comercial – e uma situação de desemprego persistentemente alto é aquela em que os déficits comerciais realmente são ruins por reduzem a demanda interna por bens e serviços.

Além disto, Kudlow parece compartilhar da visão de mundo de Malpass. De fato, sua primeira declaração depois de nomeado foi apelar para um dólar mais forte – o que só vai piorar o real déficit comercial que Trump considera ser um sinal de fraqueza americana.

Por que Trump escolheu pessoas com idéias tão conflitantes sobre política econômica internacional? A resposta, provavelmente, é de que ele não compreende o assunto o suficiente para perceber que existe um conflito. E que as pessoas de ambos os lados nesta disputa têm uma propensão comum a uma ignorância insuperável, o que as torna o tipo de gente ligada a Trump.

De qualquer modo, em economia internacional o governo está agora a caminho de uma batalha de zumbis – uma disputa entre dois grupos com péssimas idéias que se recusam a morrer. /Tradução: Terezinha Martino 

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