Susan Walsh/AP
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Trump constrói hotel de luxo no Rio

Pré-candidato à Presidência dos EUA, magnata é criticado por opiniões sobre imigrantes latinos; polêmica mal foi notada por aqui

Simon Romero, THE NEW YORK TIMES

21 de agosto de 2015 | 02h05

RIO - O escritor Mario Vargas Llosa chamou Donald Trump de "racista imbecil". No México, as pessoas estão divertidamente quebrando as "piñatas" com a figura de Trump depois das cáusticas observações do pré-candidato à Presidência dos EUA sobre a presença de imigrantes da América Latina no país. Na Guatemala, uma empresa de bebidas alcoólicas vem distribuindo cartazes com a imagem de Trump usando um termo que, quando traduzido gentilmente, significa imbecil.

Enquanto isso, no Brasil, onde o novo hotel de 171 quartos de Trump no Rio de Janeiro provocou tão pouca comoção que seu sócio no empreendimento sente-se perfeitamente à vontade para elogiar sua posição contenciosa sobre a imigração.

"Sou latino e devo dizer que não me senti absolutamente ofendido com seus comentários", disse Paulo Figueiredo Filho, 33 anos, magnata do setor imobiliário brasileiro que se descreve como um libertário conservador e que está construindo o novo Hotel Trump na cidade.

"Passei muito tempo nos Estados Unidos e vi muitos imigrantes ilegais causando problemas e tumultos no país e na verdade concordo com Trump", afirmou Figueiredo.

Bem-vindo. A relativa ausência de tensão em torno do luxuoso hotel de Trump no Rio de Janeiro - em contraste com as reações em outros pontos das Américas, onde algumas gigantes da mídia e outras empresas chegaram a romper as relações com Trump - reflete como a sociedade brasileira está mudando e como não está.

A linha do horizonte do Rio de Janeiro, marcada por esqueletos de vários projetos hoteleiros de luxo que foram abandonados, é testemunha da piora da economia brasileira, tornando todo empreendimento imobiliário com chances de ser concluído uma perspectiva atraente à medida que a cidade se apronta para hospedar a Olimpíada de Verão de 2016.

"É um privilégio ter uma propriedade Trump em nossa cidade", disse Alfredo Lopes, presidente da associação de hotéis da cidade e também do Rio Convention and Visitors Bureau, frisando que não deu muita atenção à controvérsia sobre Trump nos Estados Unidos. "Este projeto é um presente para o Rio que atenderá a um segmento muito exclusivo do mercado", disse.

Mas há uma dinâmica cultural que também influencia em favor de Donald Trump. Estudiosos atribuem parte da indiferença no tocante às declarações de Trump sobre a imigração a uma tradição enraizada no Brasil de achar que o País é uma entidade separada dos seus vizinhos de língua espanhola, não obstante o vigoroso empenho diplomático nas últimas décadas para criar vínculos mais fortes na região.

"(Muitos brasileiros) não se ofenderam com aquelas observações porque não acham que elas se refiram a eles", afirmou Maxine Margolis, antropóloga da Universidade da Flórida que tem muito conhecimento sobre a emigração brasileira para os Estados Unidos.

As estimativas variam amplamente sobre o número de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos porque muitos são ilegais, mas a antropóloga acredita sejam cerca de 900 mil a 1 milhão, números próximos dos divulgados pelo Ministério de Relações Exteriores brasileiro.

Embora alguns imigrantes brasileiros tenham retornado ao Brasil nos anos subsequentes à crise financeira de 2008, período em que a economia brasileira estava no auge, a antropóloga afirmou que agora eles estão novamente voltando aos Estados Unidos, uma vez que a economia do Brasil está em desaceleração.

Opulência. Naturalmente, Trump e seu novo hotel têm ao menos alguns detratores. Numa cidade que é há muito tempo definida pela enorme desigualdade entre ricos e pobres, nem todos acham que o Rio necessita de mais um hotel de luxo, muito menos um que pretende cobrar diárias de US$ 500 e cujos pisos são de mármore turco importado.

Somando-se à extravagância, o hotel de 13 andares, com suítes com varandas irregulares e vista para o Atlântico, conta com uma piscina "infinita" de vidro suspensa em cima de uma boate com capacidade para 600 pessoas.

"Vivemos numa cidade que foi o maior porto de escravos na história da humanidade, que deixou um legado de desigualdade que é perceptível em todo o Rio de Janeiro", disse Theresa Williamson, urbanista e diretora da ONG RioOnWatch.

"Em vez de se concentrar em meios para aliviar essa desigualdade, o que observamos é um impulso para usar a Olimpíada em benefício dos setores mais privilegiados da sociedade", afirmou. "O Hotel Trump é o mais recente elemento numa cidade onde lugares de lazer para os ricos é a prioridade das autoridade".

Mas a crítica ao hotel, que custou US$ 120 milhões e que deverá ser inaugurado antes da Olimpíada, permanece moderada. Apesar dos ventos econômicos contrários que sopram no País, porta-voz da Trump Organization disse que o grupo continua otimista com relação aos negócios no Brasil. E mesmo com o empresário deparando com fortes críticas em várias partes da região, disse ela, "ele e a marca têm um tremendo em toda a América Latina".

Trump recentemente manifestou também seu otimismo no tocante ao Brasil, mesmo que a construção de um outro projeto da sua organização no Rio, um complexo de cinco torres numa área perto do porto, tenha sido adiado e não tem data para ser concluído./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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