Trump e o jogo contra
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Trump e o jogo contra

O presidente norte-americano deu substanciais demonstrações de que não gosta de tratados de livre-comércio

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2017 | 21h00

Já não há quem chame a atenção para a enorme diferença entre o que foi o discurso eleitoral do candidato Trump e o que seria a política real do presidente Trump. O que ele se comprometeu a fazer está colocando em prática, não importando, neste momento, o que possa estar ou dar errado.

Saiu o decreto da construção do muro; e saiu a desistência dos Estados Unidos da Parceria Transpacífico (TPP). Trump deu substanciais demonstrações de que não gosta de tratados de livre-comércio.

Durante mais de 70 anos, os nacionalistas brasileiros sustentaram a tese de que a liberalização do comércio mundial sempre favoreceu as economias hegemônicas. Durante o primeiro mandato, o governo Lula recusou-se a negociar a proposta de criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), porque entendia que se tratava de uma instituição cujo objetivo seria fazer o jogo dos Estados Unidos.

Agora, é o presidente norte-americano que se recusa a levar adiante as negociações quase concluídas da TPP porque entende que faria o jogo da concorrência contra sua proposta política dos Estados Unidos em primeiro lugar.

Nos próximos dias, Trump também pretende renegociar o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta, na sigla em inglês), que já tem 23 anos. Garante que o principal beneficiário do livre-comércio dentro do bloco foi o México, à custa de postos de trabalho dos americanos. Falta explicar por que, ilegais ou não, os mexicanos buscam emprego nos Estados Unidos, e não no México.

As iniciativas comerciais de Trump estão carregadas de contradições e isso sugere que os Estados Unidos ficarão para trás à medida que a escalada protecionista aumentar.

A perda de empregos nos Estados Unidos de que se queixa Trump não aconteceu em consequência dos acordos de livre-comércio, mas por duas outras razões. Primeira, porque a indústria dos Estados Unidos perdeu eficiência, como se pode conferir pela cidade fantasma em que se transformou Detroit, a capital do automóvel, e pelo montão de sucata em que jaz o resto do Cinturão da Ferrugem no Nordeste dos Estados Unidos. E, segunda razão, porque, em comparação com as bases em outros países, a mão de obra americana ficou cara demais.

Se atender às chantagens de Trump e, se uma vez modernizada, voltar a bombar em território americano, a indústria dos Estados Unidos não recontratará pessoal como antes, porque a tecnologia de última geração é altamente poupadora de mão de obra.

As negociações da TPP começaram em 2010 por iniciativa do governo dos Estados Unidos, com o objetivo estratégico de conter a escalada comercial da China. Como esse instrumento está sendo abortado, fica claro que Trump está contribuindo para escancarar novos canais para os negócios da China.

Desde Adam Smith a liberalização do comércio contribui para o aumento da produtividade e para a redução do custo de vida. Se a opção dos Estados Unidos é pelo protecionismo mercantilista, o resultado será a destruição das atuais cadeias globais de suprimento e a aceleração da inflação – e não o aumento do emprego de mão de obra. Trump estará aumentando a utilização de tecnologia de informação e de inteligência artificial e não o emprego.

CONFIRA:

Aí está a evolução de 24 meses dos juros cobrados pelas operações de crédito rotativo do cartão de crédito.

Sem explicação

Nem o chefe adjunto do Departamento Econômico do Banco Central, Renato Baldini, tem explicação para o aumento dos juros no crédito rotativo do cartão de crédito no mês de dezembro, quando os juros básicos (Selic) caíram. De todo modo, não há justificativa para o tamanho desses juros: nada menos que 484,6% ao ano em dezembro, um aumento de 53,2% em 12 meses.

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