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Trump e os 74 milhões que nele votaram

Falta saber se as políticas do presidente Biden vão convencer a metade trumpista da população a mudar o ponto de vista

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2020 | 17h00

Donald Trump foi derrotado nas eleições e pelos próximos quatro anos não mais ocupará o Salão Oval da Casa Branca. Mas os 74 milhões que nele votaram continuarão a escalavrar a vida social dos Estados Unidos. As forças que nele se penduraram continuam aí, irredutíveis em seus pontos de vista.

Há um caldo de frustração e de ressentimento que continua tomando conta da vida política dos Estados Unidos. Os historiadores, sociólogos e cientistas políticos continuarão a analisar o fenômeno que está associado ao desmanche do sonho americano. Pelo menos metade da população sente que desapareceu tanta coisa com que contava, talvez para sempre, de suas vidas e das vidas das gerações seguintes.

As oportunidades se estreitaram, o desemprego aumentou, o ensino já não prepara mais para a vida profissional, o salário é uma parcela do que dele se esperava, a casa própria começa a ficar inacessível. A aposentadoria se esvai pelas razões acima apontadas e porque as aplicações financeiras são corroídas por juros reais negativos. 

Há, em tudo isso, razões históricas, culturais, políticas e demográficas, como o envelhecimento da população. Mas, do ponto de vista econômico, tem a ver com o processo de integração de segmentos enormes da população asiática aos mercados de trabalho e de consumo. 

E também tem a ver com a incorporação ao sistema produtivo da Tecnologia da Informação, cujo resultado é enorme redução de custos de produção e dispensa de mão de obra. Basta conferir o que acontece com os bancos, que fecham agências e adotam operações automáticas com aplicativos, e o que acontece com o crescimento do e-commerce, que transforma lojas em showrooms, reduz estoques e dispensa vendedores.

Este é o momento em que não se perseguem as causas dos problemas nem tampouco soluções, mas procuram-se culpados. O culpado é quem está sendo apontado, dedo em riste, por tomar o mercado de trabalho. É o chinês que empurra para os mercados produtos por uma fração do preço dos fabricantes tradicionais e toma o emprego do trabalhador americano; é o imigrante que se sujeita a salários irrisórios e derruba o mercado de trabalho; é a população negra que reivindica os mesmos direitos de quem já os tem. 

A pressão se transfere aos canais institucionais. O livre-comércio passa a ser entendido como instrumento de empobrecimento das classes médias; as políticas de distribuição de renda, de assistência social e o acesso a serviços públicos de saúde, como canais que desviam recursos dos pagadores de impostos para os folgados de sempre... Enfim, a pressão é por protecionismo e por políticas xenofóbicas e racistas. A polarização ocupa o lugar dos acordos consensuais.

Por enquanto, venceram Joe Biden e aqueles que se apegam a outros diagnósticos e a outras respostas. Falta saber se as políticas do presidente Biden convencerão a metade Trump da população a mudar seu ponto de vista e a outra metade a continuar fazendo as mesmas apostas que fizeram nas últimas eleições. Quem viver verá.

CONFIRA

» A reação do petróleo

Os preços do petróleo seguem em recuperação, na cola da sensível melhora da atividade econômica mundial. O fundo do poço ocorreu em maio, quando a pandemia chegou a seu auge. No fechamento da última quinta-feira, os preços ainda estavam 15% abaixo dos praticados em janeiro. A vacinação em massa da população mundial deve ajudar a aumentar a demanda por energia e por combustíveis. Mas a produção também deve reagir. Difícil saber em que ponto acontecerá o novo equilíbrio. 

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