Tom Brenner/The New York Times
Tom Brenner/The New York Times
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Trump e os interesses americanos contrariados

As iniciativas protecionistas do presidente dos Estados Unidos têm por objetivo atender aos segmentos da classe média norte-americana, mas podem ser tornar tiros pela culatra

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2018 | 21h51

As manobras protecionistas do presidente Donald Trump, supostamente para atender prioritariamente aos interesses dos Estados Unidos (“put American first”), ameaçam transformar-se em tiros pela culatra, ou seja, ameaçam contrariar interesses dos Estados Unidos que Trump pretendia atender.

Nesta semana, duas instituições que defendem os negócios de montadoras dos Estados Unidos avisaram que, além de aumentar os preços internos e de inviabilizar investimentos em veículos autônomos, a imposição de um imposto de importação de até 25% sobre a entrada de veículos e de autopeças nos Estados Unidos, que Trump pretende adotar, provocaria o fechamento de “milhares de empregos” também nos Estados Unidos.

À parte as montadoras, outros setores grandes consumidores de aço já haviam alertado de que a imposição de tarifas ou de cotas de importação de aço e de alumínio aumentaria os preços ao consumidor.

Também nesta semana, a Harley-Davidson, produtora de uma das mais famosas grifes de motocicleta do mundo, decidiu transferir, dos Estados Unidos para outros países, parte de sua produção, para evitar que o aumento das tarifas alfandegárias por parte da União Europeia, decididos em retaliação contra a política de Trump, derrubasse seu mercado na Europa. A reação de Trump foi ameaçar a Harley-Davidson com “um grande imposto”.

Como se sabe, as iniciativas protecionistas do presidente Trump têm por objetivo atender aos segmentos da classe média dos Estados Unidos que se sentem crescentemente prejudicados pelas importações de produtos mais baratos da China, do México e do Canadá, que vêm reduzindo salários e postos de trabalho no país.

Em artigo publicado no New York Times nesta segunda-feira, o prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, lembra com dados do Departamento do Comércio que mais de 10 milhões de empregos nos Estados Unidos atendem a negócios de exportação dos Estados Unidos que agora podem ser retaliados. Entre eles estão os empregos na área da soja que a China deixará de importar dos Estados Unidos.

E Krugman explica que cerca de 95% dos bens importados da China sujeitos a tarifas protecionistas de Trump são componentes ou insumos destinados à produção nos Estados Unidos. Ou seja, essa nova taxação tende ou a tirar eficiência da produção dos Estados Unidos ou a aumentar os preços internos.

Assim, aos beneficiários da política de Trump contrapõem-se os perdedores, tanto pelas ações de Trump quanto pelas retaliações comerciais de outros países. Nesse imenso jogo de perde-ganha, é difícil saber quem sairá mais prejudicado e, mais difícil ainda, antecipar o efeito político líquido.

A guerra comercial está apenas no início. E a perseguição às empresas que contrariam a política de Trump, como a Amazon e a Harley-Davidson, pode deflagrar reações também contra ele.

Por enquanto, os interesses contrariados pela política protecionista de Trump não se refletem em desaprovação popular. Ao contrário, como foi examinado pela Coluna publicada no portal do Estadão dia 20 (O surfe de Trump), o presidente vem obtendo grande apoio pelo seu desempenho.

CONFIRA:

» Ora a Justiça...

O Supremo está destruindo um princípio colocado arduamente em prática desde a Proclamação da República: o de que decisão judicial não se discute; cumpre-se. Há apenas dois meses, o plenário do Supremo decidiu que um réu pode ser preso após condenação em segunda instância. No entanto, nesta terça-feira, a Segunda Turma do Supremo, por 3 votos a 1, entendeu que o ex-ministro do governo Lula José Dirceu pode esperar em liberdade pela decisão em última instância.

» Desmoralização

Se o próprio Supremo não respeita decisão do Supremo, ninguém mais está obrigado a respeitá-lo. E a Justiça fica desmoralizada.

» É a roleta

O cumprimento das leis se transforma em questão aleatória. Ganha uma causa judicial quem conseguir pagar os advogados mais influentes ou quem manobrar para empurrar um julgamento para que seja examinado por um juiz amigo. O que vale hoje pode não valer amanhã. Decisão judicial virou jogo de roleta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.