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Trump e seu muro

Hoje, a imigração ilegal nos Estados Unidos é muito diferente do que era

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2019 | 04h00

Furioso com o Congresso americano, o presidente Donald Trump invocou seu poder de convocar um estado de emergência nacional para conseguir os recursos suficientes para construir um muro na fronteira com o México. Mas isto com certeza se transformará imediatamente em uma batalha judicial. Talvez sua jogada não dê certo, se ele continuar trilhando um caminho em que os meios se transformam cada vez mais em um fim.

O muro foi apresentado durante a sua campanha presidencial como instrumento para impedir a imigração ilegal, o contrabando de drogas e o ingresso de bandidos. Era uma contrapartida à sua visão negativa das importações e do Nafta, o acordo de livre-comércio com o México e o Canadá. Ambos tiveram o apoio das comunidades industriais deterioradas e contribuíram para a sua imprevista eleição.

Hoje, a imigração ilegal é muito diferente do que era. Antes, o México era a fonte legal original da mão de obra sazonal necessária para as colheitas. Posteriormente, o desenvolvimento desigual do país produziu grandes fluxos de imigrantes ilegais. Agora, fazem parte do movimento adultos e crianças que fogem da violência da América Central. E o tratamento injusto que lhes tem sido reservado nos EUA é um problema muito grave.

A questão da imigração tem portanto dois aspectos. Um é o destino do enorme contingente de imigrantes ilegais – cerca de 11 milhões –, quase todos desejando obter a cidadania. O outro é o bloqueio efetivo das importações de drogas e das exportações de armas. Essas ocorrem em volumes gigantescos em postos de fronteira legítimos, ou por meios ainda mais sofisticados.

Trump agora insiste em uma maneira de satisfazer sua base conservadora de eleitores. A declaração de uma emergência nacional deverá tornar-se uma questão constitucional, contrapondo o poder executivo ao poder legislativo. Ocorre que, no mínimo, a resolução dessa questão acabará impedindo medidas positivas para tratar de problemas reais, como a infraestrutura deteriorada, o seguro saúde e os preços dos medicamentos, o aumento das mortes no país em decorrência do uso de opiáceos, aquecimento do clima e muitos outros. Obviamente a campanha para a reeleição já começou.

Mas, no meio tempo, cresce a importância de questões internacionais relativas ao Irã, à Venezuela, a Rússia, China, Turquia e Oriente Médio. O Brexit aparentemente está prestes a tornar-se uma realidade – sem que se saiba ao certo o que acontecerá depois. O vice-presidente Mike Pence acaba de criticar nossos aliados na Otan por tentarem preservar o tratado com o Irã.

Enquanto isso, a política externa vem sendo tratada pelo secretário de Estado quase por baixo do pano, aparentemente visando aos objetivos do governo de redução dos gastos diretos dos EUA e da garantia de superávits comerciais positivos em toda parte.

Trump quer esquecer do resto do mundo – com exceção da Coreia do Norte, onde ele vê ganhos enormes ocorrendo. Espera-se que Kim Jong-un não peça a assistência da presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, quando se encontrarem no Vietnã, no final deste mês.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro voltou a despachar em Brasília. E já está descobrindo que a presidência não é tão fácil como talvez acreditasse. O caso do seu ministro da Secretaria Geral, Gustavo Bebbiano, está aí para provar.

Todos esperam pela versão final das mudanças propostas para tratar da situação alarmante da previdência. Paulo Guedes parece ser favorável a uma mudança mais acelerada do que os outros estarão dispostos a aceitar, uma rápida conversão para o modelo dos depósitos em contas individuais adotado pelo Chile.

A demografia claramente exige uma resposta. No final, entretanto, será que uma alteração significativa do atual sistema de repartição se dará em um momento em que não há superávit fiscal? É este o problema imediato a ser resolvido. É muito mais provável que o Congresso aprove as medidas necessárias quando a economia avança firmemente do que quando o progresso é incerto.

O crescimento econômico brasileiro para 2019 poderá tornar-se mais difícil à medida que os avanços em outras partes começarem a deteriorar-se. Então, os investimentos externos não crescerão em resposta à reforma da Previdência, e será imprescindível reduzir a corrupção e aumentar os investimentos internos. Não há outra saída. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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