Christian Bruna/EFE
Christian Bruna/EFE

Trump insiste na reciprocidade comercial

Ao impor tarifas a vários produtos chineses, presidente americano acredita estar punindo o país por transgressões comerciais e de investimentos

The Economist

15 de julho de 2018 | 05h00

No sexto episódio de O Aprendiz, reality show transmitido pela primeira vez em 2004, Donald Trump, como sempre, demitiu uma concorrente que disputava um emprego em sua empresa. Ela era, disse ele, o pior negociador. E ela não conseguiu reagir quando menosprezada por seu companheiro de equipe. O episódio foi intitulado Olho por Olho (Tit for Tat, em inglês).

Esse mesmo princípio de reciprocidade guia a política comercial de Trump como presidente. E está animando sua guerra tarifária com a China. Os EUA impuseram tarifas de 25% sobre as importações chinesas, no valor de US$ 34 bilhões. A China reagiu com tarifas semelhantes a uma quantidade similar de produtos americanos.

Os dois lados discordam, no entanto, sobre o que é tit e o que é tat. A China acredita que está respondendo dólar por dólar à agressão. Os EUA acreditam que estão retaliando, punindo a China por transgressões comerciais e de investimento, incluindo apropriação de tecnologia. Na opinião de Trump, as novas tarifas da China não são uma represália, mas uma nova afronta à qual ele deve responder. Em 10 de julho, os EUA notificaram a intenção de impor tarifas de 10% sobre outros US$ 200 bilhões em produtos chineses.

A visão de Trump sobre a reciprocidade comercial é simples. Se a América impuser uma tarifa de 2,5% sobre os carros da China, esta deveria cobrar algo similar nos EUA. Se a China cobra 25%, os representantes comerciais dos EUA devem ter sido maus negociadores que, presumivelmente, não teriam sobrevivido ao sexto episódio de seu programa.

Os negociadores adotam visão mais ampla de reciprocidade. Sim, os países devem dar e receber. Mas o que é dado e recebido é ganho político e dor. Um governo não vai expor uma indústria sensível a uma concorrência estrangeira mais feroz, a menos que o acordo ofereça recompensas políticas compatíveis. E assim, um acordo recíproco pode deixar todos os lados abrigando setores igualmente sensíveis, mas inteiramente diferentes. Os EUA, por exemplo, cobram tarifas de 27,3% em uma variedade de têxteis, incluindo ternos e camisetas.

Às vezes, o retorno em dor ou ganho não funcionam como o esperado. Os países em desenvolvimento não precisaram retribuir os cortes nas tarifas que os EUA e as potências europeias negociaram entre si em negociações do pós-guerra. Não se pensava que países pobres ganhariam muito com a liberalização do mundo rico e não eram obrigados (ou estavam preparados) a oferecer muito em troca.

Mas a China só aderiu à Organização Mundial do Comércio em 2001. Ela foi forçada a renunciar a muitas das vantagens que países semelhantes em desenvolvimento desfrutavam. Concordou, por exemplo, em não elevar suas tarifas acima de 10% em média. O teto equivalente para o Brasil é de 31,4%; para a Índia, 48,5%.

Barganha. No Aprendiz, Trump explicou o quiproquó no centro do programa. Depois de passar por uma temporada inteira de testes, o concorrente vencedor seria recompensado com um trabalho na empresa de Trump e, mais importante, a chance de “aprender o suficiente para que talvez um dia também pudesse se tornar um bilionário”. “Como mestre”, disse Trump, “quero passar meu conhecimento para outra pessoa”.

Esse tipo de barganha é comum aos aprendizados. Os aspirantes trabalham arduamente, muitas vezes a baixo custo, em troca do know-how que adquirirão. Um tipo análogo de reciprocidade também tem funcionado no relacionamento econômico da China com os EUA. Suas empresas aspirantes aprenderam muito ao atender a clientes americanos e ao trabalhar com empresas americanas.

O que a China deu em troca desse conhecimento? Alguns comentaristas americanos acreditam que a indústria americana transmitiu o conhecimento sob coação e sem recompensa. Mas isso ignora o outro lado da grande barganha na qual os EUA implicitamente empreenderam com a China.

Como um aprendiz, a China forneceu trabalho barato, mas dedicado. Os benefícios acumulados foram para as empresas e consumidores americanos. Graças à entrada da China na OMC, o preço dos bens manufaturados nos EUA caiu 7,6% em 2000-2006, de acordo com Mary Amiti, do Federal Reserve Bank de Nova York.

Aprendizes sempre sonharam em superar seu mestre. Na década de 1780, Samuel Slater serviu como aprendiz em Derbyshire, na Inglaterra, em uma das primeiras fábricas de algodão movidas a água. Ele memorizou os projetos e procedimentos da fábrica, fugiu para os EUA e ajudou a estabelecer fábricas rivais na Nova Inglaterra. Depois, seus compatriotas o chamaram de “Slater, o traidor”. Os americanos, no entanto, o celebraram como pai de sua Revolução Industrial. Nenhum dos participantes do programa de Trump conseguiu a glória que ele descreveu no programa. A China pode fazer melhor. Às vezes, o futuro brinca de retaliação com o passado. 

© 2018 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR CLAUDIA BOZZO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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