Trump muda tudo

A eleição de Trump muda as perspectivas para a Europa, mas a ameaça mais grave pode estar nos mercados emergentes

Barry Eichengreen*, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2016 | 15h27

O consenso das pessoas bem informadas era, até recentemente, de que 2017 estava com jeito de ser um ano melhor. O relatório Perspectiva Econômica Mundial, do FMI, divulgado em outubro, previa que o crescimento da economia global iria acelerar de 3% este ano para quase 3,5% no próximo. As economias avançadas, segundo a projeção, cresceriam mais rápido. Os mercados emergentes e os países em desenvolvimento iriam crescer ainda mais rapidamente. A América Latina cresceria mais rápido. O Brasil iria voltar a crescer em 2017.

Mas agora Donald Trump muda tudo. A única questão é em que direção ele vai mudar.

A julgar pela reação de Wall Street, o impacto econômico de curto prazo poderá ser positivo se Trump cortar impostos e lançar um grande programa de investimentos em infraestrutura. Mas existem razões para acharmos que os mercados foram afoitos demais no seu entusiasmo. Se os cortes de impostos decididos por Trump assumirem a forma de reduções das alíquotas mais altas, eles beneficiarão principalmente os ricos. A renda adicional, depois de pagos os impostos, será alocada em fundos que gerem fortunas, e não será gasta. Se as despesas feitas em infraestrutura assumirem a forma de parcerias público-privadas, como se especula, o estímulo fiscal efetivo será muito pequeno. Os investidores vão se perguntar por que fizeram com que as ações e os juros subissem após a eleição.

A outra coisa que os investidores farão, assim que acordarem e sentirem o cheiro do café, é uma pausa até que o errático presidente Trump revele suas intenções. Irá ele punir empresas americanas que mantêm seus lucros protegidos no exterior, como ameaçou o governo Obama, ou perdoará esses pecados? Revogará os regulamentos ambientais e flexibilizará os padrões de segurança dos produtos? Dará sua bênção a fusões anticompetitivas como a aquisição envolvendo a AT&T e a Time Warner? Recompensará empresas que façam negócios com as Organizações Trump e penalizará aquelas que se recusarem? Quem sabe? A única decisão prudente de um CEO corporativo, ao contemplar essas incertezas, é esperar para ver. Se você acha que isso significa investimento mais fraco, você está certo.

A eleição de Trump também muda as perspectivas para a Europa. De forma indireta, Trump foi pesadamente responsável pela derrota do referendo constitucional convocado pelo ex-premiê italiano Matteo Renzi. Uma das razões pelas quais uma maioria de italianos votou “não” é porque eles temiam que a reforma concentrasse poder demais nas mãos do Executivo. A chegada de Trump ao poder lembrou os de que havia uma boa razão para temer um novo Silvio Berlusconi ou, pior, um novo Benito Mussolini. Agora, como resultado, umas das quatro maiores economias da Europa – e a que possui o mais frágil sistema bancário – se defronta com um período sem precedentes de instabilidade financeira e política. E como a Itália caminhar, em termos econômicos e financeiros, também caminhará a União Europeia.

Mas a ameaça mais grave pode estar nos mercados emergentes. Trump prometeu reabrir o Nafta, tratado de livre comércio da América do Norte, já no seu primeiro dia no cargo. O que significa “reabrir” não está claro, mas seja o que for, não será bom para o México. Trump ameaçou impor tarifas punitivas de 35% para empresas que transferirem empregos para o exterior. Como virtualmente qualquer tipo de investimento externo pode ser interpretado como transferência de empregos para o exterior, as multinacionais americanas que cogitam investir em mercados emergentes pensarão duas vezes. Trump prometeu assumir uma posição dura nas negociações com a China, talvez utilizando os poderes do seu Departamento do Tesouro para declarar o país um manipulador cambial e impor tarifas sobre as importações americanas de produtos chineses. O Brasil, é verdade, pode ainda não estar na linha de fogo de Trump. Mas nota-se que há um padrão de conduta.

Os mercados emergentes dependem de instituições internacionais em suas negociações com países avançados. Os emergentes contam com o poder da Organização Mundial do Comércio (OMC) de impor a resolução de conflitos em questões de políticas e práticas de comércio exterior. Mas não está claro se Trump respeitará as decisões da OMC quando estas entrarem em conflito com sua visão pessoal ou com os melhores interesses dos Estados Unidos, da maneira que ele os definir. Países como a Ucrânia dependem da assistência do FMI em períodos de dificuldade financeira. Mas não está claro se Trump desejará ver decisões de caráter financeiro relevantes serem tomadas por uma instituição internacional da qual os Estados Unidos detêm “apenas” 17% dos direitos de voto – sem falar no fato de que apoiar a Ucrânia significa ajudar um inimigo de Vladimir Putin, que é amigo do presidente eleito.

Para os mercados emergentes, as opções são as mesmas de 50% da sociedade americana que se desespera com a perspectiva de uma presidência Trump. Uma alternativa é sentar e torcer pelo melhor. Isso significa ter esperança de que Trump, ao assumir as responsabilidades do cargo, comece a agir de maneira sensata, adotando políticas sólidas e estáveis, e trabalhando com instituições como OMC e FMI. Podemos ter esperança, mas dificilmente podemos estar confiantes.

Uma segunda opção é resistir energicamente a políticas imprudentes e irresponsáveis do novo governo americano. Muitas pessoas nos Estados Unidos acham que os manifestantes anti-Trump devem sair às ruas. No caso dos mercados emergentes, isso significaria responder na mesma moeda, sanções contra sanções e tarifas contra tarifas. Mas o perigo em ambos os casos é o mesmo. Uma resistência hostil somente incentivará a indignação prepotente de Trump e seus partidários, encorajando-os a adotar medidas de retaliação ainda mais extremadas.

Resta apenas uma opção viável, que é de os oponentes do Trumpismo desenvolverem alternativas positivas. Nos Estados Unidos, isso significa Estados progressistas como a Califórnia fazerem o que é possível para um Estado: criar seus próprios programas de saúde, elevar seus próprios padrões ambientais, e fortalecer sua própria proteção social para imigrantes e minorias. Durante muitos anos, foram os Estados americanos menos progressistas em termos sociais que advogaram em prol dos “direitos dos Estados”. Agora o jogo se inverteu.

Similarmente, se Trump reduzir o poder do FMI, os mercados emergentes podem mobilizar poder financeiro através do Fondo Latinoamericano de Reservas (que tem funding dos bancos centrais de sete países latino-americanos; o Brasil não participa) ou da Chiang Mai Initiative Multilateralization (CMI, na sigla em inglês – acordo multilateral de ‘swap’ de divisas entre os membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático, China, Japão e Coreia do Sul – ASEAN+3). Se Trump virar as costas para a OMC, os governos latino-americanos têm de refortalecer o Mercosul e dar ao seu sistema de resolução de disputas, regido pelo Protocolo Olivos, poder de verdade. Se Trump cortar o financiamento para o Banco Mundial, os emergentes precisam canalizar empréstimos para o desenvolvimento através do Banco de Investimento em Infraestrutura da Ásia e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Essa estratégia não insulará os mercados emergentes em relação a todas as políticas destrutivas que poderão ser adotadas pelos EUA, do mesmo modo que o governo estadual progressista da Califórnia não conseguirá proteger os californianos de todas as políticas destrutivas de Washington DC. Porém, diante das circunstâncias, pode ser o melhor que se pode fazer. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Economista e professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, escreveu especialmente para o 'Estado'

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