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Trump na ‘Montanha Mágica’

Mais medidas protecionistas hão de vir dos EUA agora que os portões foram escancarados

Monica De Bolle, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2018 | 05h00

A magnífica obra de Thomas Mann situada em sanatório fictício na Suíça de Davos é demasiado erudita para ser reduzida à vulgaridade de Donald Trump. Trump não é Hans Castorp, o rapaz ingênuo que sofre a influência persistente de seus mentores antagonistas – Settembrini e Leo Naphta. Settembrini o humanista defensor da racionalidade, Naphta o ex-judeu de tendência autoritária e defensor da irracionalidade. Contudo, Trump é a prova de um dos principais argumentos de Naphta: o de que a humanidade tende sempre a render-se à irracionalidade diante da sobriedade da ponderação cautelosa e racional.

Tão atuais são os debates entre o iluminismo progressista de Settembrini e seu adversário intelectual, o conservador radical, porém igualmente brilhante Leo Naphta. Tão atual é a constatação de que os dois personagens, por mais intenso que seja o debate entre eles, jamais haverão de compreender um ao outro tamanho o apego às suas ideias. A Montanha Mágica é a expressão da polarização política e das guerras culturais personificadas por Trump, padrão que se repete mundo afora.

Trump estará na montanha essa semana, um ano depois de o líder chinês ter feito discurso para lá de simbólico a respeito da importância da integração global. Trump estará na montanha mágica logo após ter feito jus à sua promessa de campanha a respeito da China: seu governo acaba de impor salgadas tarifas sobre as importações de máquinas de lavar e de painéis solares – majoritariamente provenientes da China –, sublinhando sua agenda de “America First”.

Mais medidas protecionistas hão de vir, setores industriais dos EUA hão de pleitear tarifas para proteger-se da competição externa agora que os portões foram escancarados. É assim que descerá montanha abaixo a economia mundial, rumo aos embates geopolíticos, às retaliações comerciais, ao protecionismo irracional.

Na montanha mágica, Trump tentará explicar – amparado por extensa delegação – por que o que é bom para os EUA é bom para o mundo. Ou melhor, por que o protecionismo travestido de America First é bom para todos, ainda que o protecionismo desnudado de slogans tenha se revelado desastroso toda vez que alguém tentou implantá-lo seriamente. No Brasil de Dilma, o protecionismo foi desastroso. No Brasil de vários governos anteriores ao de Dilma, o protecionismo permitiu que o País andasse na contramão de nossos pares regionais, perdendo competitividade e dinamismo. O Brasil de Temer esbravejou contra o protecionismo, mas pouco fez. No Brasil que virá após as eleições de 2018, ainda não temos o que dizer a respeito do protecionismo.

Na montanha mágica, Trump encontrará seus parceiros no Nafta – o acordo entre México, EUA, e Canadá – cuja sexta rodada de negociações para modernizá-lo corre simultaneamente em Montreal. Na montanha mágica, a delegação americana terá a oportunidade de encontrar-se com as delegações dos dois outros países antes de seguirem todos para Montreal. O protecionismo Trumpista tem sido fonte de profundas incertezas sobre o futuro do acordo regional. O governo Trump fincou o pé em áreas contenciosas, exigindo concessões de seus parceiros sem dar nada em troca – é a arte da negociação irracional em sua plenitude.

A irracionalidade que fez com que Trump retirasse os EUA do Acordo Trans-Pacífico (TPP) há um ano, forçou os demais 11 países-membros a anunciar, exatamente um ano depois, que o ambicioso tratado será assinado no Chile no dia 8 de março. Os países-membros terão acesso facilitado aos mercados de cada um dos participantes, ficando os EUA excluídos de qualquer acesso preferencial.

Estimativas feitas pelo Peterson Institute for International Economics, onde trabalho, mostram que os EUA deixarão na mesa cerca de 0,5% do PIB americano em receitas adicionais de exportação comparadas às receitas que teriam caso tivessem permanecido no acordo. Em contrapartida, os 11 países-membros terão receitas adicionais de 1% dos seus respectivos PIBs, em média.

China, TPP, Nafta, Naphta. Trump não é Castorp, mas não há dúvida de que seu mentor da irracionalidade é Leo Naphta. Ainda que o personagem de Thomas Mann fosse ferrenho defensor do comunismo.

*ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

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