Michael Reynolds/EFE
Michael Reynolds/EFE

Advogado vai comandar o Banco Central americano

Trump anunciou ontem a troca de Janet Yellen por Jerome Powell, e disse que novo presidente trará ‘experiência do setor privado’

Cláudia Trevisan, correspondente, O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2017 | 17h43

WASHINGTON - Quebrando uma tradição de décadas, o presidente Donald Trump anunciou ontem que não reconduzirá Janet Yellen ao comando do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), e a substituirá por Jerome Powell, um advogado multimilionário de 64 anos que fez carreira no mercado financeiro e integra o board de governadores da instituição desde 2012.

Quase todos os ocupantes da Casa Branca nas últimas seis décadas mantiveram os presidentes do Fed apontados por seus antecessores, o que reforçou a imagem de independência da entidade responsável pela política monetária da maior economia do mundo.

Apesar da troca, a expectativa do mercado e de analistas é que Powell dê continuidade à política de normalização gradual da taxa de juros americana iniciada por Yellen em dezembro de 2015. Desde que ingressou no board de governadores, por indicação do democrata Barack Obama, ele nunca proferiu um voto divergente.

“Há poucas posições mais importantes do que essa – creiam em mim – no nosso governo”, disse Trump, ao anunciar a nomeação de Powell nos jardins da Casa Branca. O novo presidente do Fed é o primeiro ocupante do cargo a não ter um PhD em Economia desde Paul Volcker, que dirigiu a instituição de 1979 a 1987. “Ele trará experiência do setor privado e perspectiva do mundo real”, ressaltou o presidente. 

Os investidores temiam que Trump optasse por John Taylor, um economista conservador da Universidade de Stanford considerado mais agressivo do que Yellen em relação ao ritmo de alta dos juros. Depois de permanecer em zero nos anos seguintes à crise financeira de 2008, o índice está entre 1% e 1,25%. Anteontem, o Fed decidiu manter a taxa inalterada, mas indicou que poderá haver elevação em dezembro. 

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A Bolsa de Nova York subiu depois do anúncio da indicação de Powell e fechou em alta de 0,35%.

Na Casa Branca, Powell disse que a economia americana se recuperou depois da crise de 2008 e está próxima do pleno emprego, com a inflação sob controle. “Nosso sistema financeiro, sem dúvida, está muito mais forte e resiliente do que antes da crise”, afirmou.

Pressão. “Yellen fez ótimo trabalho no Fed e não havia nenhuma razão para substituí-la. Se o presidente não fosse o Trump, ela certamente seria reconduzida ao cargo, até para preservar a percepção de autonomia dos dirigentes do Fed”, disse Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics e colunista do Estado.

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Na opinião dela, Powell dará continuidade à política monetária de Yellen, mas deverá ser mais aberto a pressões de Trump e de Wall Street pela desregulamentação do mercado financeiro, o que poderá criar riscos no longo prazo. Durante depoimento ao Senado em junho, Powell afirmou que é possível reduzir o custo decorrente de regulamentações sem comprometer a “segurança e a solidez” do sistema financeiro. 

QUE É JEROME POWELL

Jerome Powell será o mais rico presidente do Federal Reserve desde os anos 40, e passará a integrar a galeria de abastados que integram o governo Donald Trump. Em sua mais recente declaração de bens, em junho, ele disse que seu patrimônio líquido estava entre US$ 19,7 milhões e US$ 55 milhões – os documentos trabalham com faixas, e não valores específicos.

Formado em Ciência Política pela Universidade de Princeton e Direito pela Universidade Georgetown, ele começou a se familiarizar com o mundo econômico em 1984, quando iniciou sua carreira no mercado financeiro. Sua fortuna foi construída no Carlyle Group, do qual foi sócio de 1997 a 2005.

De 2010 a 2012, Powell trabalhou pelo salário simbólico de US$ 1 ao ano no Bipartisan Policy Center, um instituto de pesquisas em Washington dedicado ao estudo de políticas públicas. Em 2011, uma de suas análises serviu de base para o lobby sobre parlamentares republicanos pela elevação do teto da dívida dos Estados Unidos.

Em discurso proferido há duas semanas, Powell avaliou como “administráveis” os riscos para os mercados emergentes da normalização da taxa de juros nos países desenvolvidos. “Até agora, os fluxos de capital têm se movido em linha com os fundamentos de mercado”, afirmou. 

Segundo ele, há um aumento das vulnerabilidades em alguns países, especialmente em razão do crescimento da dívida corporativa, mas elas continuam abaixo dos patamares registrados nos turbulentos anos 80 e 90. “É esperado que as condições monetárias globais se normalizem gradualmente, enquanto o Federal Reserve e os bancos centrais de outras economias avançadas continuam a acentuar a clara comunicação e transparência.”

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