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Trump vai negociar

Para Bacha, presidente eleito é homem de negócios que deve prezar capitalismo global

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2016 | 06h00

Edmar Bacha, um dos mais respeitados economistas do País, um dos “pais” do Plano Real e, agora, também imortal da Academia Brasileira de Letras, não está entre os mais alarmados com os efeitos na economia mundial da vitória de Donald Trump.

Sem rodeios, Bacha vai direto ao ponto: “Não estamos falando de um esquerdista, mas sim de um homem de negócios, um sujeito que deve não só entender como prezar os valores do capitalismo global, que não tem uma visão comprometida com o anticapitalismo”.

Ele é claro em apontar quem, caso tivesse chegado à presidência dos Estados Unidos, lhe traria sérias preocupações sobre o futuro do comércio mundial: o esquerdista Bernie Sanders, que disputou com Hillary Clinton a indicação para candidato democrata a presidente dos Estados Unidos nesta eleição.

Segundo Bacha, a eleição de Trump “epitomiza e magnifica o grau de insatisfação do eleitor médio nos Estados Unidos e na Europa pelo fato de que está sofrendo perdas com o avanço tecnológico e a globalização”.

Simplificadamente, essas perdas decorrem da concentração de renda nos países ricos e dos ganhos de renda de países emergentes como a China e a Índia, que exercem uma pressão competitiva sobre os empregos e os salários de muitos americanos e europeus médios.

O economista considera, porém, que há espaço para negociação. E que Trump, como capitalista e negociante, em tese, deve ter capacidade para entender esse fato e negociar.

Bacha nota que o eleitor cosmopolita das grandes cidades americanas, que votou maciçamente em Hillary, vive em uma economia de serviços e é muito menos dependente do comércio global do que “o eleitor do ‘cinturão vermelho’ ligado ao complexo agro-mínero-industrial, que é a base de boa parte das exportações americanas”. O cinturão vermelho é uma alusão à cor republicana, e refere-se primordialmente ao interior do país.

Em outras palavras, o eleitor de Trump depende economicamente das exportações e não tem nada a ganhar com uma guerra comercial em que os Estados Unidos levantem barreiras contra produtos chineses e mexicanos e esses países, em retaliação, façam o mesmo em relação a produtos americanos.

“Os Estados Unidos precisam aumentar suas exportações, não reduzir suas importações”, resume o economista.

É claro que ampliar exportações é um objetivo que está imbricado no complexo de fricções comerciais entre os países, em que questões de câmbio, subsídios, tarifas, etc. costumam levar a ásperas disputas. Isso não significa, porém, que não haja soluções satisfatórias para todos os lados.

Bacha nota que a China pode importar mais produtos americanos e, na verdade, tenta voluntariamente uma transição de modelo econômico na direção de maior consumo e menor dependência de investimentos e exportações. O México, por sua vez, gostaria de importar mais produtos dos Estados Unidos, mas depende de financiamento, o que fica bem mais difícil se o Nafta – o acordo de livre-comércio entre o país, os Estados Unidos e o Canadá – for pelos ares. Assim, as críticas e os ataques de Trump ao Nafta poderiam ser lidas efetivamente como uma estratégia de renegociação, o que faz mais sentido, para que o presidente eleito atenda quem lhe deu votos, do que a simples destruição do acordo.

“Depois da Segunda Guerra Mundial descobriu-se o Estado de bem-estar social e agora é preciso uma reengenharia social mundial, isto é, descobrir uma nova fórmula de repartir os ganhos da globalização de um jeito mais equitativo, que não deixe de fora esse cidadão médio dos países avançados”, diz Bacha.

Ele lembra que “o comércio livre é muito bom e gera ganhos de prosperidade, mas tem muitos perdedores – os ganhadores podem compensar os perdedores porque o ganho total é positivo, mas faltou essa compensação recentemente”.

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