Trump vira o grande vilão na cena da retomada

Trump vira o grande vilão na cena da retomada

Ministros e líderes de organizações reunidos no FMI apontam ameaça global do protecionismo

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 05h00

WASHINGTON - O presidente Donald Trump ganhou o papel de grande vilão no encontro de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), embora seu nome jamais tenha sido citado nas críticas a suas decisões. Enquanto ele se ocupava de encrencas internas e mais perigosas, como as acusações da atriz pornô Stormy Daniels e a briga com o ex-diretor do FBI James Comey, dirigentes do FMI, ministros de Finanças e líderes de outras organizações denunciavam o risco de guerra comercial gerado pelo protecionismo americano. A responsabilidade chinesa por desajustes comerciais foi ocasionalmente lembrada, mas com menor ênfase e quase nenhuma insistência. 

A única defesa da política americana foi apresentada pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, na declaração preparada para a reunião, ontem de manhã, do Comitê Internacional Monetário e Financeiro (conhecido pela sigla IMFC), principal fórum político da instituição.

Segundo Mnuchin, práticas comerciais injustas prejudicam o crescimento americano e global e o FMI deveria trabalhar para seus membros desmontarem barreiras tarifárias e não tarifárias e para proteger direitos de propriedade intelectual. O governo americano acusa parceiros chineses de comércio desleal, de imposição de barreiras injustificáveis e de apropriação ilegal de tecnologia americana. 

Tanto os países deficitários quanto os superavitários deveriam participar do esforço de ajuste dos pagamentos internacionais, disse Mnuchin. Os desajustes globais, afirmou, são hoje um terço maiores do que era nos anos 1980 e 1990. 

O próprio FMI, como instituição, sustentou várias vezes o argumento da divisão de esforços entre países sistematicamente deficitários, como os Estados Unidos, e superavitários, como China e Alemanha. A ideia subjacente, a da cooperação, continua no centro das pregações. A proposta de Munchin de responsabilidade conjunta é sustentada por esse valor. 

O governo chinês foi acusado durante muitos anos, em reuniões do FMI, de manter desvalorizada artificialmente sua moeda, o renminbi, para baratear os produtos da China e ganhar vantagem comercial injusta. As acusações de manipulação cambial praticamente desapareceram, mas o secretário americano ainda mencionou, em sua declaração, o uso do câmbio como fator de competitividade. 

Uma cobrança indireta à China apareceu também no pronunciamento do diretor da Comissão Europeia, Pierre Moscovici. Ele apontou a retomada do comércio como fundamental para a recuperação econômica, pregou a manutenção de mercados abertos e convocou os membros do FMI para o combate ao protecionismo e a “todas as práticas injustas”. Acrescentou, no entanto, uma observação sobre a importância de cuidar de problemas de excesso de capacidade. 

Aparentemente vaga, essa é uma referência à capacidade excessiva da indústria siderúrgica, registrada principalmente na China. O assunto tem sido examinado na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). O primeiro lance protecionista do presidente Trump foi o anúncio de barreiras contra importações de aço e de alumínio. 

Protecionismo. Outros ministros e líderes de organizações puseram em destaque, logo nos parágrafos iniciais de suas declarações, os custos de qualquer grande conflito comercial. “O protecionismo é um risco chave, capaz de afetar negativamente a confiança, o investimento e o emprego”, disse o secretário geral da OCDE, Angel Gurría. Proteger o sistema internacional e comércio baseado em regras é essencial, acrescentou, para prevenir os danos do afastamento de um regime de mercados abertos. A menção a um sistema de regras é mais uma referência indireta ao presidente Trump. Desde a campanha eleitoral ele mostrou, muitas vezes, desprezo pelos sistemas multilaterais e, de modo especial, pelas normas da Organização Mundial do Comércio (OMC). 

O ministro do Tesouro do Reino Unido, Phillip Hamond, também se declarou preocupado com o protecionismo, apontado como um risco para a continuidade do crescimento global. 

Previsivelmente, o diretor-geral da OMC, Roberto Azevedo, também deu destaque ao risco de escalada de conflitos comerciais, indicados em seu pronunciamento como principal ameaça à economia global. A importância do risco foi realçado por novos dados favoráveis sobre o comércio, componentes da recuperação econômica. 

O governo brasileiro participou do jogo, com o novo ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, apontando a escalada das tensões comerciais como “o risco mais notório” para a sustentação do crescimento mundial no médio prazo. 

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