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Trump pode mesmo vencer?

Pesquisas eleitorais não reconhecem talentos de Trump, mas problemas de Hillary

Albert Fishlow*, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2016 | 05h00

Algo que parecia fora de questão há um mês emergiu subitamente como possibilidade. Trump começou a reduzir a diferença que o separa de Hillary em estados fundamentais como Carolina do Norte, Ohio, Michigan e Pensilvânia. Todas as manhãs minha mulher começa a prever a ascensão de Trump e a queda de Hillary, com a inevitável conclusão não apenas da vitória dele, mas também da continuidade do controle republicano sobre a Câmara e o Senado. Nesse caso, embora tenhamos a opção de voltar ao Brasil e evitar alguns dos efeitos, poucos americanos têm uma alternativa tão agradável. Eles sofrerão perdas incalculáveis, assim como o resto do mundo.

Por que um resultado tão irracional se tornou objeto de debate sério? Esse avanço nas respostas dos eleitores às pesquisas de intenção de voto não é consequência de um reconhecimento mais amplo dos talentos de Trump, mas dos problemas de Hillary. No primeiro caso, ela não foi capaz de transferir o foco para alguns temas substanciais em vez de reagir às provocações de Trump. Não que falte a ela capacidade para fazê-lo. Até o momento, o número de documentos da campanha dela lidando com temas do programa de governo é 39, comparado aos 9 de Trump. Ela conhece o conteúdo desses documentos. É hábil com as políticas de governo. Mas Trump teve sucesso em definir as questões a respeito das quais boa parte do eleitorado deseja saber: a construção de um muro na fronteira com o México, que terá de arcar com o custo da obra, a criação de uma expansão de cargos no setor industrial por meio do emprego de tarifas maiores, o aumento do poderio militar possibilitando uma rápida vitória contra o Estado Islâmico, e a redução dos impostos federais.

Essas são as medidas que vão possibilitar um crescimento econômico recorde e tornarão os EUA grandiosos novamente. Essa combinação também criará um rombo de US$ 10 trilhões no orçamento federal ao longo de uma década. Trump conseguiu esse resultado excelente fazendo promessas que jamais poderá cumprir, com a simples habilidade de mentir ao falar com o público.

Faz poucos dias que a campanha dele (mas não o próprio candidato) finalmente reconheceu que Obama nasceu nos EUA, e não no Quênia. De acordo com a agência independente de checagem de fatos Politifact, ganhadora do Prêmio Pulitzer, tais desvios da verdade correspondem a cerca de 70% das afirmações dele, e a 28% das afirmações de Hillary.

A outra grande dificuldade de Hillary, depois de mais de trinta anos sob os holofotes da política, é a comunicação. Os americanos ainda se mostram céticos em relação à saúde dela, aos seus programas de governo cuidadosamente elaborados, seu patrimônio pessoal, seu servidor particular de e-mail, às doações estrangeiras à Fundação Clinton, e a outros pontos. Ela reforça tudo isso com uma substancial preferência pela privacidade.

É muito menor o número de participantes das pesquisas que o consideram mais qualificado para assumir a presidência do que Hillary; Trump gasta menos com publicidade anunciando sua posição, mas recentes pesquisas de intenção de voto mostram que ela tem vantagem de apenas 2%.

O candidato libertário, Johnson, ex-governador do Novo México, está mostrando força, apesar de não saber onde fica Aleppo (ou justamente por causa disso). Está se esforçando para ser incluído no primeiro debate nacional entre Hillary e Trump, na semana que vem. Ainda não se sabe quantos eleitores republicanos e democratas ele seria capaz de persuadir. Assim, há consideráveis evidências justificando as preocupações de minha mulher.

Por outro lado, temos as probabilidades da análise Nate Silver 538 do resultado das eleições – o que me permite dormir à noite. Trabalhando com base no resultado agregado de pesquisas e reportagens, essa análise indica 60% de probabilidade de eleição de Hillary ante 40% de eleição de Trump, com uma diferença menor no colégio eleitoral do que tínhamos antecipado ou gostaríamos de ver. Espero que as probabilidades estejam corretas. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*economista e cientista político

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