‘Trumponomics’

Dentre os treze homens de confiança de Trump na economia, apenas três têm alguma experiência

Monica de Bolle*, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2016 | 05h00

Treze homens e nenhum segredo. Após semana desastrosa, Donald Trump anunciou seus treze homens de confiança na economia. Dentre os treze, apenas três têm alguma experiência relacionada à formulação de políticas econômicas. Os demais são homens de negócios como o candidato. Homens cuja semelhança não se restringe ao gênero, à cor, ou mesmo ao tipo de atividade que exercem, mas envolve, ironicamente, seus nomes: seis chamam-se Steve, Stephen ou Steven.

A campanha de Trump atravessa momento complicado. Nas últimas duas semanas, vários republicanos sentiram-se compelidos a repudiar declarações de Trump, abandoná-lo por completo, ou declarar apoio a Hillary Clinton. O anúncio do plano econômico que fará dos EUA país “grandioso novamente” foi tentativa clara de reaproximar-se de algumas bandeiras republicanas clássicas, como a redução dos impostos. A proposta do candidato prevê redução da alíquota dos impostos corporativos dos atuais 35% para 15%, o que poderia atrair empresas multinacionais ao tornar os EUA país mais competitivo. Contudo, o candidato não explicou como fará para compensar o impacto da queda da tributação sobre o déficit e a dívida pública. Projeções do Congressional Budget Office, órgão independente que fiscaliza as contas públicas dos EUA, revelam que a dívida pública federal – métrica que exclui a dívida dos Estados, diferente do Brasil – deve subir de 76% do PIB em 2016 para perto de 90% em dez anos. Tal valor superaria a média das últimas cinco décadas. Parte relevante do aumento da dívida americana está atrelada ao aumento dos gastos obrigatórios com saúde e previdência ante o envelhecimento populacional. Em seu discurso, Trump não mencionou o problema da dívida pública.

O candidato falou ainda em simplificar o imposto de renda sobre pessoas físicas, reduzindo de 7 para 3 as faixas relevantes. Embora ele tenha se dirigido ao público de descontentes, salientando que seu plano ajudará a classe média e quem enfrenta dificuldades no mercado de trabalho, o fato é que os mais beneficiados pelas medidas de Trump seriam os mais ricos, gente bem parecida com seus 13 escolhidos e com ele próprio. Trumponomics também prevê a eliminação do imposto sobre heranças, que, por construção, beneficia os mais abastados dos mais abastados – paga 40% de imposto nos EUA quem recebe herança superior a US$ 5,5 milhões, ou US$ 10 milhões para casais. O plano menciona a necessidade de diminuir a regulação para estimular o investimento, sobretudo no setor de energia, mas nada diz quanto às regulações que seriam removidas e seu impacto.

A tentativa de Trump de adequar-se à agenda republicana tradicional, esforço para recuperar apoio dentro do partido que o acolheu, encerra-se aí. Trump voltou a rechaçar com veemência aquela que sempre foi a mais clássica bandeira dos republicanos: o livre-comércio e os acordos de integração. Trump reiterou que, se eleito, irá enterrar o Acordo Trans-Pacífico (“Trans-Pacific Partnership”, o TPP) recém-negociado entre os EUA e mais onze países com amplo apoio republicano. Também disse que haverá de renegociar o Nafta – o acordo entre México, EUA e Canadá, em vigor desde meados dos anos 90. Essas duas iniciativas, por si, não apenas trariam prejuízos aos EUA tanto do ponto de vista geopolítico quanto nos aspectos econômicos – as empresas americanas que estão engajadas no comércio internacional perderiam mercados e sofreriam retaliações –, como dariam à China posição proeminente no comércio internacional. Trump acredita ser possível resolver o “problema chinês” solapando tarifas de 45% nos produtos do país asiático, desconsiderando qualquer efeito bumerangue que isso poderia ter para a economia americana.

A perda do superávit de US$ 300 bilhões da China com os EUA pouco prejudicaria a potência asiática, cujo PIB se aproxima dos US$ 5 trilhões. Por fim, a postura anticomércio de Trump seria desastrosa para um Brasil que tenta se reinserir no mundo reconhecendo a importância do engajamento global, contrariando o bom histórico das relações bilaterais com governos republicanos.

Trump, 13 homens, e um plano sem substância. Não dá nem roteiro de filme. Muito menos estratégia para a presidência da maior economia do planeta.

*Economista, pesquisadora do Peterson Institute for Internacional Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University

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