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Tsipras e os sem-gravatas

O novo primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, se manifesta e a Bolsa de Atenas desaba, perdendo 9%, com menção especial para os bancos que perderam 26,6%. O choque entre o governo grego da esquerda radical e os grandes atores econômicos era previsto. E se tornou realidade. Mas foi mais brutal e mais rápido do que se imaginava. E mais perigoso também.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2015 | 02h04

Os dois principais atores dessa tragédia grega endureceram. Entretanto, há algumas semanas observou-se uma tentativa para acalmar a situação: os gregos, representados por Alexis Tsipras, não falavam mais em sair da zona do euro e quanto à sua dívida colossal buscavam fórmulas mais brandas. Os líderes europeus, por seu lado, davam mostras de que gostariam de evitar um confronto com esse bando de ministros sem gravatas que vai reinar em Atenas.

Ora, essa calmaria era ilusória. Bastou um dia e veio a tempestade.

Inflexibilidade. Alexis Tsipras apresentou um programa inquietante: aumento do salário mínimo, recontratação de funcionários, interrupção das privatizações, etc. Um programa orçado em 12 bilhões, ao passo que a Grécia dispõe apenas de 5 bilhões de superávit orçamentário. Onde buscar a diferença? Paralelamente, a Europa também está inflexível. A Alemanha não precisava mostrar sua rigidez. Ela já deixou clara sua inflexibilidade.

Mas colocou os pontos nos "is". Nada de perdão da dívida, ou seja, nada de não pagar aos alemães o dinheiro que a Grécia gastou inutilmente. E Berlim proferiu discurso viril. "Não vamos permitir que se afirme que a Europa e a Alemanha não têm coração. Berlim verteu no abismo grego centenas de milhões de euros. Tudo evaporou. E agora nos tratam como egoístas e avaros."

O discurso enérgico da Alemanha teve repercussão. Mesmo a França, a gentil França socialista, com tanta compaixão pelos infelizes, repete que os endividados devem pagar suas dívidas. Como se todo o corpo político europeu, incluídas as autoridades da União Europeia, obedecesse a um chefe de orquestra clandestino, cada um colocando sua pedra no "muro de dinheiro": nada de pedir aos franceses, aos austríacos ou aos letões para desembolsarem o dinheiro no lugar dos gregos.

Nos últimos dias nos perguntamos se Tsipras será o "clone" de Hugo Chávez, o presidente venezuelano que foi o "pesadelo" dos bancos e dos liberais, ou clone de Lula, que preferiu não a esquerda radical, mas o caminho da reforma. Hoje, a resposta pode ser lida nos olhos furibundos de Angela Merkel: é mais Chávez do que Lula. Além do que, o segundo filho do agitador grego chama-se Ernesto, em homenagem a Che Guevara.

Rússia. Eis um outro sinal do agravamento da disputa: Tsipras decidiu abrir uma segunda frente no campo diplomático. Enquanto toda a comunidade ocidental berra contra a Rússia culpada de relançar a guerra na Ucrânia e ameaça o Kremlin de novas sanções, ele afirma que a declaração antirrussa por parte dos ocidentais foi redigida sem o consentimento de Atenas.

A manobra do premiê grego é venenosa. Ele afirma que a Grécia poderá bloquear as políticas europeias se as demandas de Atenas no tocante à dívida não forem levadas em conta. Nesse ponto, Merkel intervém: foi a Alemanha que conseguiu uma relativa unanimidade sobre o tema russo-ucraniano, ao passo que diversos países europeus foram bem menos severos, mais moderados com relação a Moscou. É esse frágil consenso europeu que Tsipras ameaça explodir. "A Grécia existe, que diabo!"

A todo esse ruído e furor acrescente-se uma nota irônica: a China também se juntou a todas as capitais liberais que rosnam contra esse poder grego de extrema-esquerda. Por quê? O premiê decidiu interromper o programa de privatizações e, particularmente, a do Porto de Atenas, no Pireu. Ora, é um grupo chinês que está no comando dessa operação, a China Ocean Shipping Company, que já adquiriu dois terminais do Pireu e sua participação deverá chegar a 67% do porto.

Pequim não gostou nada. Está fora de questão esses "esquerdistas" do Syriza estragarem os planos de países sérios e liberais como a China, entravando o processo de privatização. A Agência Nova China ficou furiosa. Decididamente, esses agitadores de Alexis Tsipras, esses ministros sem gravata, são loucos. Diríamos que são comunistas! / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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