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Isto é o que justamente poderá ocorrer em novembro nos Estados Unidos: o blue wave, onde os Democratas poderiam vir a controlar os poderes executivos e legislativos.

Paulo Leme*, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2020 | 05h00

A intensidade do choque causado pela covid-19 diminuiu um pouco, mas o estrago já está feito: o mundo vive a sua pior recessão desde a Grande Depressão de 1929-33, criando um mal-estar social enorme devido ao desemprego, falências e mortes. Nos Estados Unidos, no segundo trimestre o PIB caiu 32,9% (anualizado) e a crise reabriu feridas raciais que ainda não cicatrizaram. 

É contra este pano de fundo que no dia 3 de novembro teremos as eleições americanas. Estarão em jogo a Casa Branca, os 435 assentos da Câmara de Deputados, 35% dos 100 assentos no Senado, e 72% dos 50 cargos de governadores. 

O presidente Trump será avaliado pela sua gestão e políticas públicas para combater a pandemia e o bem-estar econômico dos eleitores. Por sua vez, os eleitores questionarão quão bem preparado está o candidato pelo Partido Democrata e ex-vice-presidente, Joe Biden, para reconduzir os Estados Unidos de volta ao caminho da prosperidade, bem-estar social, e liderança mundial. 

Nos Estados Unidos, geralmente o presidente em exercício é reeleito para um segundo mandato. No entanto, há cinco exceções: William Taft, Herbert Hoover, Gerald Ford, Jimmy Carter e George Bush Sr. A derrota deles tem um ponto em comum: insatisfação com a situação econômica (recessão, desemprego, inflação), como consequência de guerras ou má gestão. Além disso, dificilmente um partido domina simultaneamente a Casa Branca, Câmara de Deputados e o Senado.

Isto é o que justamente poderá ocorrer em novembro: o blue wave, onde os Democratas poderiam vir a controlar os poderes executivos e legislativos. Os Republicanos manterão a maioria dos governos estaduais.

A campanha eleitoral só terá início depois de Biden anunciar a sua companheira de chapa à vice-presidência e da convenção do Partido Democrata marcada para o dia 17 de agosto. Até lá, teremos que respeitar as limitações estatísticas das pesquisas, que padecem de dois problemas. Primeiro, nos EUA o voto não é obrigatório; portanto, é difícil estimar quantos eleitores votarão em novembro. Segundo, devido a covid-19, o número de votos pelo correio aumentará, o que dificultará a contagem. 

Hoje, as pesquisas mostram que Biden lidera o voto popular com uma margem de 8% a 11%; e que 55,7% desaprovam o governo Trump. Os dois fatores que mais pesam contra o presidente são a maneira como conduziu a pandemia e a onda de protestos. No passado, os candidatos que abriram esta vantagem no início de agosto venceram. Bill Clinton tinha 8% de vantagem e derrotou Bush Sr., enquanto que Hillary Clinton tinha apenas 3% e perdeu para o presidente Trump. 

Para vencer, nos EUA o candidato precisa ganhar pelo menos 270 dos 539 votos do colégio eleitoral. Hoje, as pesquisas indicam que Biden tem entre 232 a 268 destes votos, enquanto que Trump tem apenas 205. Para vencer, Biden precisa conquistar entre 2 a 38 votos dos 101 votos nos “swing states.”

As pesquisas também indicam que os Democratas manterão a maioria da Câmara de Deputados e que talvez não só reconquistem o Senado, como poderão ter a maioria para aprovar leis sem sofrer o bloqueio dos Republicanos. No mercado financeiro, a probabilidade implícita do blue wave é 60%.

Em geral, os mercados caem quando os Democratas vencem. No entanto, o maior risco é que o mercado terá que esperar vários dias ou semanas até que saibamos quem venceu. À diferença do Brasil, onde o sistema é baseado em uma urna eletrônica padronizada que divulga os resultados no mesmo dia, nos EUA o sistema eleitoral é heterogêneo e anacrônico. O aumento do número de votos pelo correio retardará mais ainda a apuração dos votos. Isto pode nos levar a uma situação igual a de 2000, quando o vencedor só foi confirmado pelo judiciário 5 semanas após o término das eleições. G.W. Bush derrotou Al Gore na Flórida por apenas 537 votos. 

Ainda é cedo para saber quem vencerá em novembro. Independentemente de que quem vença, é provável que um governo Biden será bem diferente do atual governo Trump. No caso de haver um blue wave, as principais mudanças seriam: (1) aumento da presença do Estado na economia; (2) aumento do gasto social; (3) aumento de impostos; (4) profunda mudança no sistema de saúde, incluindo a volta do Obamacare e seguro médico universal; (5) proteção do meio ambiente, restringindo a exploração de petróleo, estimulando fontes alternativas de energia, e o uso de carros elétricos; (6) aperto regulatório contra conglomerados e oligopólios, com possíveis impactos nos setores de tecnologia e indústria farmacêutica; (7) política externa voltada ao multilateralismo, abertura comercial, e reposicionamento dos EUA no seu papel de liderança internacional. 

*PROFESSOR DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI E PRESIDENTE DO EXECUTIVO COMITÊ GLOBAL DE ALOCAÇÃO, XP PRIVATE

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