Tudo bem com a China, rumo a um pouso suave

Uma acelerada urbanização do país, que deve começar a lotar 'cidades fantasmas', vai garantir uma expansão considerável do PIB

STEPHEN S., ROACH, PROJECT SYNDICATE, PROFESSOR NA UNIVERSIDADE YALE, STEPHEN S., ROACH, PROJECT SYNDICATE, PROFESSOR NA UNIVERSIDADE YALE, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2012 | 03h09

Artigo

Crescem as preocupações de que a economia da China possa estar a caminho de um pouso acidentado. O mercado acionário chinês caiu 20% em relação ao ano passado, a níveis vistos da última vez em 2009. A fraqueza persistente nos dados recentes - do sentimento dos gerentes de compra e a produção industrial às vendas a varejo e exportações - intensificou a ansiedade. Muitos agora temem que a China, que por muito tempo vem sendo o motor mais potente da economia global, esteja ficando sem combustível.

São preocupações exageradas. Sim, a economia chinesa desacelerou. Mas o recuo foi contido e provavelmente assim permanecerá no futuro previsível. As razões para um pouso suave continuam sólidas.

As características de um pouso acidentado chinês são bem conhecidas da Grande Recessão de 2008-2009. O crescimento do PIB anual da China desacelerou acentuadamente de seu pico de 14,8% no segundo trimestre de 2007 a 6,6% no primeiro trimestre de 2009.

Atingido por um monstruoso choque da demanda externa que derrubou o comércio mundial em recordes 10,5% em 2009, o crescimento da China, puxado pelas exportações, passou rapidamente de vigorosa expansão para vigorosa retração. Os demais elementos de uma economia chinesa desequilibrada acompanharam - em particular, o mercado de trabalho, que perdeu mais de 20 milhões de empregos só na Província de Guangdong.

Desta vez, a descida foi bem mais suave. De um pico de 11,9% no primeiro trimestre de 2010, o crescimento do PIB anual da China desacelerou para 7,6% no segundo trimestre de 2012 - somente cerca da metade da desaceleração exorbitante de 8,2 pontos porcentuais experimentada durante a Grande Recessão. A menos que ocorra um desmanche desordenado da zona do euro, que parece improvável, a projeção básica do Fundo Monetário Internacional (FMI) de um crescimento anual de 4% no comércio mundial para 2012 parece razoável.

Isso ficaria abaixo da tendência de crescimento de 6,4% de 1994 a 2011, mas muito longe do colapso registrado em 2008-2009. Com a economia chinesa bem menos ameaçada pelo enfraquecimento puxado pelas exportações do que estava há três anos e meio, um pouso acidentado é improvável.

Evidentemente, a economia enfrenta outros problemas, em particular o esfriamento induzido pela política de um mercado imobiliário superaquecido. Mas a construção das chamadas habitações sociais para famílias de baixa renda, reforçada por anúncios de investimento recentes em áreas metropolitanas importantes como Tianjin, Chingqing e Changsha, bem como nas Províncias de Guizhou e Guangdong, deve mais que compensar o declínio. Ademais, diferentemente das iniciativas com financiamento bancário de 3-4 anos atrás, que causaram um aumento preocupante da dívida de governos locais, o governo central provavelmente jogará um papel muito maior no financiamento da rodada atual de projetos.

Cidades fantasmas. Relatos sobre cidades fantasmas, pontes para lugar nenhum, e novos aeroportos vazios estão alimentando receios entre analistas ocidentais de que uma economia chinesa desequilibrada não poderá reagir como fez no segundo trimestre de 2009. Com o investimento fixo se aproximando do patamar sem precedente de 50% do PIB, eles temem que outro estímulo fiscal conduzido por investimentos só apressará o inevitável cenário de colapso da China.

Mas na sua ansiedade, os pessimistas esquecem um dos motores mais importantes da modernização da China: a maior história de urbanização que o mundo jamais viu. Em 2011, a parte urbana da população chinesa passou de 50% pela primeira vez, alcançando 51,3%, ante menos de 20% em 1980. Além disso, segundo projeções da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a população urbana já em franco crescimento deve aumentar outros 300 milhões até 2030 - um aumento quase igual à população atual dos Estados Unidos. Com uma migração do campo para a cidade de 15 milhões a 20 milhões de pessoas por ano, em média, as chamadas cidades fantasmas de hoje rapidamente se transformarão nas áreas metropolitanas em próspero crescimento do futuro.

Xangai Pudong é o exemplo clássico de como um projeto de construção urbana "vazio" dos anos 90 rapidamente se tornou um centro urbano totalmente ocupado, com uma população atual em torno de 5,5 milhões. Um estudo da McKinsey estima que, até 2025, a China terá mais de 220 cidades com populações acima de 1 milhão, ante 125 em 2010, e que 23 megacidades terão uma população de pelo menos cinco milhões.

A China não pode esperar para construir novas cidades. O investimento e a construção precisam estar alinhados com o afluxo futuro de moradores urbanos. A crítica da "cidade fantasma" está inteiramente equivocada.

Tudo isso faz parte de um grande plano da China. O modelo produtor, que funcionou brilhantemente por 30 anos, não pode levar a China à terra prometida da prosperidade. Há muito que a liderança chinesa sabe disso, como assinalou o premiê Wen Jiabao em sua famosa crítica de 2007 advertindo sobre uma economia "instável, desequilibrada, descoordenada e, em última instância, insustentável".

Dois choques externos - o primeiro dos Estados Unidos, e agora da Europa - transformaram essas considerações em um plano de ação.

Excessivamente dependente da demanda externa de economias desenvolvidas baqueadas pela crise, a China adotou o 12.º Plano Quinquenal pró-consumo, que estabelece uma poderosa estratégia de reequilíbrio que deve estimular o desenvolvimento por décadas.

O requisito de investimento e construção da urbanização em larga escala é um pilar-chave dessa estratégia. A renda per capita urbana é mais que o triplo da média nas zonas rurais. Enquanto a urbanização se combinar com a criação de empregos - uma estratégia salientada pela concomitante investida da China no desenvolvimento puxado pelos serviços -, a renda do trabalho e o poder de compra do consumidor se beneficiarão.

Ao contrário dos que são céticos sobre a China, a urbanização não é crescimento falso. É um ingrediente fundamental da "próxima China", pois oferece opções tanto estruturais como cíclicas ao país. Ante uma escassez de demanda - seja em razão do choque externo ou de um ajuste interno, como a correção do mercado imobiliário -, a China pode ajustar seus requisitos de investimentos liderados pela urbanização de acordo com ela. Com um grande acúmulo de poupança e um déficit orçamentário de menos de 2% do PIB, ela tem como financiar esses esforços.

Uma desaceleração do crescimento não é nenhuma aberração para uma economia puxada pelas exportações. Mas a China está em muito melhor forma que o restante do mundo. Uma poderosa estratégia de reequilíbrio oferece o suporte estrutural e cíclico que lhe permitirá evitar um pouso acidentado./TRADUÇÃO CELSO PACIORNIK

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