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Tudo de ponta cabeça

Foi a partir de 2007 que o avanço constante precipitou o mundo numa montanha-russa

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2016 | 05h00

Há uma metáfora logo no início do novo livro de Thomas Friedman, colunista do The New York Times, que dá o tom da mudança. Se, a partir de 1971, o fusca tivesse evoluído no mesmo ritmo do microchip, teríamos um carro que anda a 500 mil km/h, custa treze centavos de real e leva a vida toda num só tanque de gasolina. Parece absurdo. 

Mas foi neste nível que nossos computadores evoluíram desde então. Ao evoluir, mudaram tudo. A natureza do trabalho, do fluxo do dinheiro, o ritmo de vida. Em Thank You For Being Late (Obrigado Por Estar Atrasado, em português, ainda sem edição nacional), Friedman tenta explicar onde estamos, para onde vamos.

É a partir de 2007 que o avanço constante precipitou o mundo num deslizar abaixo de montanha-russa. É o ano em que o iPhone, o Facebook, o Twitter, Android, Kindle e a empresa Airbnb nasceram. Marcam, em conjunto, também o surgimento para o público do conceito de big data. Com dados, sempre lidamos. Mas big data é diferente. São dados acumulados em quantidades abissais sem grande organização. O aumento da capacidade de processamento de computadores, porém, começou a mostrar-se capaz de encontrar padrões que transformam nossa percepção de tudo.

Um exemplo é o trabalho feito pela Fujitsu, utilizando-se de tecnologias próprias e sistemas da Microsoft, para fazendeiros de gado leiteiro no Japão. Eles tinham um problema: durante um período curto, as vacas estão no ponto para que sejam inseminadas embora produzam menos. Mas descobrir que vaca está em que ciclo era coisa feita na base do palpite e experiência. Os engenheiros anexaram pedômetros aos animais e perceberam que elas se agitam quando estão prontas para ficar prenhas. Hoje, quando acontece, os encarregados das fazendas recebem um alerta pelo celular. Não se perde tempo. A produção de leite aumentou e a de bezerros, também.

Com o acúmulo de dados, descobriram mais. Que, inseminadas nas primeiras quatro horas após o alerta, tendem a ter fêmeas. Nas quatro horas seguintes, machos. Big data não explica por quê, só mostra que acontece. Num estalo, o ganho de eficiência da indústria foi brutal e a capacidade de gerir o rebanho, imensa. Mas isso também quer dizer que menos pessoas podem fazer o mesmo trabalho.

Friedman não menciona a radical loja física que a Amazon começou a badalar em vídeos esta semana. O cliente entra, pega o que deseja, sai. Sem fila, sem caixa. Sensores sabem o que ele comprou e debitam de seu cartão. Big data pura, aplicada. Estes exemplos estão se acumulando em todo mundo. O trabalho como caixa de lojas grandes ou pequenas, porém, é o que mais emprega em todos os EUA. Hoje, é uma loja experimental pequena em Seattle. Daqui a cinco anos, 3,5 milhões de pessoas verão seus empregos extintos por obsolescência.

Estamos habituados a ver o Uber, o Airbnb, mas raramente pensamos na indústria do leite ou no caixa do supermercado. Todas as indústrias estão passando ou passarão por este processo. A inteligência extraída dos grandes pacotes de dados, porém, está desmontando e reconstruindo a economia num nível brutal de aceleração. E isto gera uma imensa ansiedade. 

As pessoas sentem na pele as mudanças embora não saibam explicar bem o porquê. O subtítulo do livro: um guia otimista para sobreviver à era das acelerações.

Justiça seja feita, não é só a tecnologia que pôs tudo de pernas para o ar. A ela, somam-se globalização e mudanças climáticas, as outras duas de três forças. Vai ser duro, mas tudo dará certo, diz Tom Friedman. Talvez. Mas, até lá, teremos de conviver com políticos que arranjam bodes expiatórios e faturam alto com a incerteza.

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