‘Tudo o que a gente quer é virar a página’

Funcionários depositam todas as esperanças nos acordos de delação e de leniência a serem firmados pela empresa

Alexa Salomão e Josette Goulart, O Estado de S. Paulo

05 Junho 2016 | 05h00

Trabalhar no Grupo Odebrecht sempre foi como entrar para uma grande família. Não à toa, a empresa se gabava de ter como política para novas contratações a indicação feita pelos próprios funcionários. Se fosse parente, melhor ainda. E foi como família que a corporação enfrentou a prisão de Marcelo Odebrecht. Um sentimento de injustiça se abateu sobre todos, que se uniram para combater o inimigo externo que tentava acabar com a reputação da família. No fim do ano, a tradicional festa foi abolida. Não havia o que comemorar. 

A cada nova notícia, a empresa negava “veemente” qualquer acusação. Mas a Lava Jato foi adentrando a empresa, levando seus principais executivos. Foram mais de uma dúzia de executivos. Em fevereiro deste ano, os funcionários, já ressabiados, passaram a se questionar e questionar a empresa. 

Era dia 22, quando a Operação Acarajé foi acionada para prender o BJ, Benedicto Barbosa da Silva Júnior, diretor-presidente da construtora. Com ele veio à tona a “planilha da Odebrecht”: uma lista de mais de 200 políticos e de valores a eles repassados. Alguns apelidos viraram piada nacional, como “Passivo”, para o ex-ministro da Casa Civil Jaques Vagner, ou Viagra para o deputado do PMDB de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos. Tinha ainda o “Caranguejo”, em referência a Eduardo Cunha, que foi presidente da Câmara dos Deputados. Na Odebrecht, porém, a lista causou desconforto. 

Ainda na Acarajé, causou estranhamento entre os funcionários a prisão da secretária Maria Lúcia Tavares. Um mês depois veio a revelação, com a Operação Xepa. Maria Lúcia estava há seis anos no Setor de Operações Estruturadas que, segundo os investigadores, nada mais era do que “um departamento da propina”, comandado por Hilberto Mascarenhas Alves da Silva Filho, executivo da holding. O moral da turma se abalou. “Até certo ponto, eles entendiam que faziam parte do jogo empresarial algumas irregularidades, mas a propina institucionalizada os pegou de surpresa”, diz um ex-executivo do grupo. As cobranças para a direção, já esfacelada, chegaram a galope. No dia seguinte à Xepa, a Odebrecht decidiu anunciar oficialmente que faria “a delação premiada definitiva” e um acordo de leniência em que a empresa e seus executivos presos, incluindo o líder Marcelo Bahia Odebrecht, entregariam todo e qualquer esquema que a empresa tivesse participado.

Os funcionários agora depositam todas as suas expectativas no sucesso desses acordos. Esperam ver os financiamentos de volta para pagar as contas sem malabarismos ou que conquistem novos projetos para que os empregos também voltem. Esperam ainda poder a sentir orgulho da companhia e dizer que a empresa mudou seus padrões de governança, com os novos departamentos de compliance que começou a implantar. Um alto executivo do grupo resume bem o sentimento geral: “tudo o que a gente quer é virar a página”. 

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